Cartas Mensais

Carta MCC Brasil – Outubro 2017 - 218ª.

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“Vós sois a luz do mundo. Uma cidade construída sobre a montanha não fica escondida. Não se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma caixa, mas sim no candelabro, onde ela brilha para todos os que estão na casa. Assim também brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus”

(Mt 5, 14-16).

Aos amigos leitores e leitoras, irmãos e irmãs, discípulos-missionários numa “Igreja em saída”, minha saudação fraterna:

Introdução. Outubro é o tradicional “Mês das Missões”, celebrando-se no domingo, 22/10, o “Dia Mundial das Missões”. Quando, no meu tempo de criança, frequentava a preparação para a primeira eucaristia, as catequistas nos enviavam pelas ruas oferecendo rifas e sorteios para angariar fundos “em prol das missões”. Por oportuno, podemos nos perguntar: que ideias podem passar pela cabeça de um cristão católico ao ouvir a palavra “missões”? Talvez perdure, ainda, nos mais velhos, aquele conceito mais ou menos tradicional de que “missões” é uma atividade para “catequizar os índios”... ou então uma campanha para angariar dinheiro para os missionários na África, na China, nas selvas amazônicas, ou para as chamadas “Obras Missionárias”, como nos meus já velhos tempos.

Entretanto, não mais se entende com tantas restrições, o que significa para nós, hoje, uma “Igreja em estado de missão”. Assim é que no coração dos seguidores de Jesus brotam perguntas que não querem calar: como anunciar a Boa Notícia do Evangelho num mundo tão distante do projeto salvífico do Pai misericordioso? Como acender a lâmpada da Palavra num mundo imerso nas trevas da ignorância da mensagem libertadora de Jesus? Como agir para “colocar a lâmpada” da misericórdia infinita de Deus, num mundo de indiferença, ódio, vingança e individualismo, que navega nas águas de uma sociedade líquida e na era da pós-verdade?

Dois documentos fundamentais para uma Igreja em missão sejam o pano de fundo para esta nossa breve reflexão: a Exortações Apostólica “Evangelii Nuntiandi” (EN) do papa Paulo VI e a “Evangelii Gaudium (EG) do papa Francisco.

1. A cultura de hoje e o anúncio missionário da Boa Notícia. O que significa para o seguidor de Jesus acender a lâmpada da Boa Notícia em nossa cultura que é o mar encapelado e tenebroso no qual navegamos, isto é, o conjunto de situações sociais, políticas e religiosas que nos cerca? Pois é de uma cultura que nasce uma mentalidade. De uma mentalidade, brota um comportamento. De um comportamento emerge o testemunho. O testemunho é a projeção da luz que ilumina o evangelizador. E, da mesma forma como acontece com a luz e os insetos, o evangelho testemunhado atrai a cultura para Jesus.

Lembra o Cardeal Filoni, Prefeito da Congregação para Evangelização dos Povos, que “ainda hoje há outros impedimentos não menos graves ao anúncio do Evangelho: a mentalidade secular, o hedonismo, a indiferença, a idolatria do bem-estar e do dinheiro”. E prossegue, seguindo o ensinamento do Papa Bento XVI e do Papa Francisco, que a proclamação do Evangelho “não é doutrinação, nem imposição ou um forçar as mentes e os corações. Adere-se ao Evangelho não por ‘proselitismo ideológico’, mas por ‘atração’, com a liberdade interior daqueles que descobrem serem filhos e filhas de Deus”.

2. A Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi de Paulo VI e a missão do evangelizador. Ao priorizar o testemunho de vida no processo evangelizador, o Papa Paulo VI assim nos ensina: “E esta Boa Nova há de ser proclamada, antes de mais, pelo testemunho. Suponhamos um cristão ou punhado de cristãos que, no seio da comunidade humana em que vivem, manifestam a sua capacidade de compreensão e de acolhimento, a sua comunhão de vida e de destino com os demais, a sua solidariedade nos esforços de todos para tudo aquilo que é nobre e bom. Assim, eles irradiam, de um modo absolutamente simples e espontâneo, a sua fé em valores que estão para além dos valores correntes, e a sua esperança em qualquer coisa que se não vê e que não se seria capaz sequer de imaginar. Por força desse testemunho sem palavras, esses cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os vêem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles são assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é, ou quem é, que os inspira? Por que é que eles estão conosco? Pois bem: um semelhante testemunho constitui já proclamação silenciosa, mas muito valiosa e eficaz da Boa Nova. Nisso há já um gesto inicial de evangelização. Daí as perguntas que talvez sejam as primeiras que se põem muitos não-cristãos, quer se trate de pessoas às quais Cristo nunca tinha sido anunciado, ou de batizados não praticantes, ou de pessoas que vivem em cristandades, mas segundo princípios que não são nada cristãos. Quer se trate, enfim, de pessoas em atitudes de procurar, não sem sofrimento, alguma coisa ou Alguém que elas adivinham, sem conseguir dar-lhe o verdadeiro nome. E outras perguntas surgirão, depois, mais profundas e mais de molde a ditar um compromisso, provocadas pelo testemunho aludido, que comporta presença, participação e solidariedade e que é um elemento essencial, geralmente o primeiro de todos, na evangelização. Todos os cristãos são chamados a dar esse testemunho e podem ser, sob este aspecto, verdadeiros evangelizadores”.  (EN 21).

3. “A dimensão social da evangelização” na “Evangelii Gaudium” do papa Francisco. Entre outros importantes parágrafos, quero assinalar o de n° 181: “O Reino, que se antecipa e cresce entre nós, abrange tudo, como nos recorda aquele princípio de discernimento que Paulo VI propunha a propósito do verdadeiro desenvolvimento: “O homem todo e todos os homens”. Sabemos que “a evangelização não seria completa, se ela não tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social, dos homens”. É o critério da universalidade, próprio da dinâmica do Evangelho, dado que o Pai quer que todos os homens se salvem; e o seu plano de salvação consiste em “submeter tudo a Cristo, reunindo n’Ele o que há no céu e na terra” (Ef 1, 10). O mandato é: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15), porque toda “a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus” (Rm 8, 19). Toda a criação significa também todos os aspectos da vida humana, de tal modo que “a missão do anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo tem destinação universal. Seu mandato de caridade alcança todas as dimensões da existência, todas as pessoas, todos os ambientes da convivência e todos os povos. Nada do humano pode lhe parecer estranho. A verdadeira esperança cristã, que procura o Reino escatológico, gera sempre história”.

Conclusão. Permitam-me, caros leitores e leitoras, insistir naquilo que julgo essencial na missão de anunciar a Boa Notícia do Evangelho nos nossos dias e assim sintetizar: introduzir critérios e valores do evangelho numa cultura que não é mais cristã. Não para criar uma nova “cristandade” e, sim, para preparar o terreno para a plena humanização de todo ser humano, criatura do Pai misericordioso, redimida pelo sangue de seu Filho bem-amado, Jesus. E que, plenamente humanizado, possa viver “divinizado”.

Portanto,

a) numa nova cultura, não permitir que se percam os valores e critérios do Evangelho e, nos novos caminhos abertos por conceitos e práticas de uma “sociedade líquida”, não renunciar ao caminho do seguimento de Jesus... “EU SOU O CAMINHO...”;

b) num tempo de “pós-verdade”, não deixar-se envolver pela mentira ou pelas aparências: “EU SOU A VERDADE...”;

c) nas dimensões de uma “cultura de morte” onde imperam a violência quase que institucionalizada, a dolorosa vingança e a fria “globalização da indiferença”, diante do sofrimento de tantos irmãos e irmãs, lutar pela recuperação da dignidade de todo ser humano, especialmente daqueles que vivem ao nosso lado: “EU SOU A VIDA...”.

Mostremos ao mundo Jesus: “EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA. NINGUÉM VAI AO PAI SENÃO POR MIM” (Jo 14, 6).

Com todo o afeto do meu coração vai meu carinhoso abraço a você, discípulo (a)-missionário (a),

Pe.José Gilberto BERALDO
Equipe sacerdotal do GEN

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