Estatuto Social

Conflito entre Catar e Arábia Saudita por trás do atentado em Mogadíscio?

Avaliação do Usuário

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

Mogadiscio (RV) – A crise do Golfo envolvendo Catar e Arábia Saudita poderia estar por trás do atentado em Mogadíscio em 14 de outubro que provocou, segundo o último balanço, ao menos 300 mortos e mais de 200 feridos.

Esta é a tese defendida por Luca Puddu, Senior Africa Analyst, do Institute of Global Studies, expert em Somália, falando à Agência Fides.

“Com toda a prudência que o caso exige, se poderia dizer que, se o governo de Mogadíscio acusou o movimento dos “al Shabaab” de ter cometido o atentado, um ato tão sangrento que atinge a população civil, se contradiz, pois o ato não contribui para consolidar a imagem do movimento de libertação nacional sobre o qual os Shabaab buscam construir a própria retórica”, explica o pesquisador.

“Por outro lado, os Shabbab negaram serem os responsáveis pela explosão. Visto a contingência do momento, penso que o atentado tem por objetivo enfraquecer o governo federal, que já é acusado pela extradição para a Etiópia, há cerca de um mês, de Abdikarin Sheikh Muse, membro de ponta do Ogaden National Liberation Front (ONLF), o que suscitou fortes protestos da oposição parlamentar, que apresentou uma moção de desconfiança em relação ao Premier Hassan Ali Khayre”, disse Puddu.

“É necessário, ademais, contextualizar as vicissitudes da Somália - incluído o último atentado - no grave conflito no Golfo Pérsico entre Arábia Saudita e Emirados Árabes de um lado, e Catar de outro. O governo federal somali mantém formalmente uma posição neutra neste conflito, mas de fato apoia de forma mais ou menos aberta o Catar. Mogadíscio colocou à disposição o seu espaço aéreo para a Qatar Airlines como alternativa ao fechamento do espaço aéreo pela Arábia saudita e pelos Emirados, cujos governos exerceram repetida pressão sobre autoridades federais somalis para que assumissem uma posição de clara condenação do Catar. Até agora, porém, o governo federal tem resistido a estas pressões”, constata Puddu.

“Por outro lado, o Presidente Mohamed Abdullahi "Farmajo" Mohamed venceu as eleições deste ano graças também à ajuda financeira do Catar, e sobretudo está construindo uma aliança preferencial com o Catar, mas mais ainda com a Turquia, aliada de Doha, que está construindo uma base militar na Somália, para treinar oficiais e sub-oficiais do exército somali”, acrescenta o pesquisador.

“A política filo-catariana de “Farmajo” é porém contestada pela maior parte dos Estados da Federação, como o Puntland, isto para não falar do Somaliland, que acolhe em Berbera uma base dos Emirados. Em 8 de outubro reuniram-se em Chisimaio os Presidentes dos Estados regionais para falar sobre a reforma constitucional e sobre o processo de paz, de forma totalmente independente do governo federal”.

“Assim, criou-se uma forte divisão entre os governos federados e o federal, com os primeiros alinhados com a Arábia saudita e os Emirados e o segundo com o Catar. Neste contexto, o atentado de Mogadíscio visa enfraquecer ulteriormente o governo federal, demonstrando que não é capaz de garantir a segurança em Mogadíscio. Recordemos que o discurso da segurança foi fundamental para o atual Presidente na vitoriosa campanha eleitoral”, conclui o pesquisador”.

Na explosão, também foi atingida a Embaixada do catar, segundo declarou o Ministro do Exterior de Doha, Xeique Mohammed bin Abdulrahman Al Thani. (JE/Fides)

Fonte: Rádio Vaticano