Estatuto Social

CARTA MENSAL- MARÇO DE 2007

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Carta ao Movimento de Cursilhos de Cristandade do Brasil -  Março de 2007 

Acaso o jejum que eu prefiro não será isto: acabar com a injustiça qual corrente que se arrebenta; acabar com a opressão qual canga que se solta; deixar livres os oprimidos, acabar com toda espécie de imposição? Não será repartir tua comida com quem tem fome? Hospedar em tua casa os pobres sem destino? Vestir uma roupa naquele que encontras nu e jamais tentar te esconder do pobre teu irmão? (Is 58,6-7) 

Meus amados leitores e leitoras, peregrinos como eu e comigo peregrinando rumo à Pátria definitiva: Inicio esta carta já imaginando que todos nós tenhamos entrado conscientemente na caminhada quaresmal, rumo à celebração das alegrias pascais. À nossa frente, carregando a pesada cruz dos nossos pecados, caminha Jesus, centro da nossa fé e razão de ser da nossa esperança e nós O seguimos, olhos fitos nEle e de mãos dadas com a nossa comunidade cristã. 

É sobre esse itinerário de quaresma que, tendo como pano de fundo a citação acima, que tenciono deixar-lhes algumas considerações, tendo por foco o trinômio que caracteriza esse tempo: Oração – Esmola – Jejum. 

1. Oração “Quando orardes, não useis de muitas palavras, como fazem os pagãos” (Mt 6,7). Por isso, oração não são somente palavras. Ou só uns momentos. Ou só clamores. Ou só pedidos. Ou só queixas. Oração é encontro. É intimidade. É o filho e a filha contemplando o rosto do Pai, abraçado a Ele, falando com Ele sem necessidade de palavras, deixando-se abraçar por Ele. Sem cobranças. Sem censuras. Sem repreensões. Sem ameaças de castigo eterno. Olhos transparentes de criança nos olhos amorosos do Pai. Como os daquele Pai que, ao receber o filho que voltava de uma longa e sofrida ausência, não o censura – pobrezinho! – não o castiga, mas abraça-o com ternura (estou falando do filho pródigo do Evangelho). Proporciona-lhe um banho reconfortante, uma roupa nova, um anel no dedo e sandália nos pés machucados e, ternura das ternuras, delicadeza das delicadezas, um banquete na intimidade familiar! Para nós, filhos e filhas, o banquete da Eucaristia! Meu irmão, minha irmã: nesta quaresma, reserve um tempo somente para você, para contemplar o rosto amoroso e terno do Pai. Você está machucado? Ferido? Preocupado? Sufocado pelas pressões que o cercam? Pois olhe para Ele... Ele estará olhando para você... Deixe-se abraçar por Ele. Talvez Ele esteja morrendo de saudade de você! Corresponda ao abraço... Assim, você estará em oração! 

2. Esmola “Antes, daí em esmola aquilo que está dentro, e tudo ficará puro para vós” (Lc 11, 41). Será que a esmola consiste apenas na moedinha que você dá ao pobre largado na sarjeta, para livrar-se dele, como se esse gesto fosse apenas para desencargo de consciência? Existe um novo nome ou novos nomes para esmola. Com paciência e abertura de coração, você poderá descobri-los. Mas, o novo nome de esmola é, sobretudo, partilha. Partilha de você mesmo. Partilha dos dons com que Deus o presenteou e que, talvez, você ainda não tenha tido tempo de descobrir... Partilha da riqueza que você possui no interior de você mesmo e da qual você, quem sabe, ainda não se deu conta por andar muito ocupado ou pré-ocupado com outros assuntos julgados mais importantes!... Partilha da sua alegria, do seu sorriso, da sua bondade, da sua compreensão, do seu perdão... Tudo isso é “aquilo que está dentro”, conforme as palavras de Jesus. Gosto de lembrar aquele episódio comovedor narrado nos Atos dos Apóstolos, lembrando o homem, coxo de nascença ao qual Pedro, com João disse: “Olha para nós! Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda’. E tomando-o pela mão direita, Pedro o levantou...” (Cf. At 3, 1-10). Meu irmão, minha irmã: temos toda a quaresma para descobrir ou redescobrir em nós mesmos as fontes da autêntica esmola que são as nossas riquezas interiores. E, descobrindo-as, partilhar tudo com aqueles que nos rodeiam e necessitam de nós. 

3. Jejum“... no dia do vosso jejum, tratais de negócios e oprimis vossos empregados. É porque, ao mesmo tempo em que jejuais, fazeis litígios e brigas e agressões impiedosas. Não façais jejum com esse espírito, se quereis que vosso pedido seja ouvido no céu” (Is 5, 3-4). Então, o jejum também tem um novo nome? Sim, todos os que você puder imaginar, listar e interpretar como renúncia, sacrifício, desapego, economia, abstenção, enfim, tudo o que você conseguir descobrir nessa linha. Só não vale ser oportunista, confundindo jejum quaresmal com dieta para emagrecer! Se, todavia, permanece o antigo sentido do jejum quaresmal como abstenção de alimentos, é preciso alargar os horizontes, dando-nos conta de que vivemos no tempo do desperdício, do supérfluo, do abuso do ter sobre o ser. Numa moderna interpretação da necessidade absoluta de um jejum a ser feito de um jeito novo, poderíamos aduzir a questão das mudanças climáticas por conta da poluição, do efeito estufa que leva ao aquecimento global com suas trágicas previsões de eliminação da vida da nossa mãe-terra – essa terra que Deus nos deu de presente e que estamos matando, pouco a pouco e cada vez mais aceleradamente –, do desmatamento que leva á diminuição da água em todo o planeta, etc. Não seria uma forma de jejum, evitar o desperdício fabuloso de água, ou, de vez em quando, deixar o carro em casa colaborando para não adensar a penetração de gases tóxicos na camada de ozônio, etc.? Por outro lado, como ensina o profeta Isaías, – e Jesus o confirma – não seria autêntico jejum quaresmal prolongado por todo o ano, praticar a justiça, a solidariedade e colaborar, dentro das nossas possibilidades, para o surgimento de uma nova sociedade justa e solidária? Meu irmão, minha irmã: nesse tempo de Quaresma de 2007, ano em que a Igreja no Brasil tem como tema central da Campanha da Fraternidade a Amazônia (evangelização, preservação da natureza, respeito aos seus habitantes, etc.), que tal assumir de verdade, com a graça de Deus, o trinômio ORAÇÃO – ESMOLA – JEJUM? 

Um forte e carinhoso abraço do irmão peregrino e solidário na caminhada rumo à Páscoa da Ressurreição e da Vida,  

Pe. José Gilberto Beraldo

Assessor Eclesiástico Nacional MCC

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