Estatuto Social

CARTA MENSAL- NOVEMBRO DE 2007

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“Como o corpo é um, embora tenha muitos membros, e como todos os membros do corpo, embora sejam muitos, formam um só corpo, assim também acontece com Cristo. De fato, todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num só Espírito para formarmos um só Corpo. E todos nós bebemos de um único Espírito” (1Cor 12, 12-13).

Meus amados irmãos e irmãs, membros que somos de “um só corpo e um só Espírito”:Iniciando esta carta mensal, meu mais profundo desejo é que, unidos pela comunhão em Cristo Rei e com Ele identificados, possamos fazer acontecer seu “Reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da e justiça, do amor e da paz!”[1]Neste mês de novembro temos motivos importantes para aprofundar nossas reflexões em torno de celebrações muito significativas para nossa vida cristã: Festa de Todos os Santos, Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, Dia de Ação de Graças e, finalmente, Jesus Cristo, Rei do Universo. Com a Festa de Cristo Rei, a Igreja no Brasil celebra, também, o Dia do Leigo e da Leiga. É sobre este tema tão atual e oportuno que proponho nossa reflexão mensal, concretizando-a em três pontos fundamentais: como se define o leigo e a leiga através dos Documentos da Igreja universal, como o recente Documento de Aparecida trata do tema e, finalmente, como devemos considerar as ‘agremiações’ de leigos e leigas na Igreja.

1. Quem é o leigo e a leiga na Igreja? Há duas maneiras de se responder a essa pergunta – uma anterior e uma posterior ao Concílio Vaticano II.A primeira está muito bem expressa numa afirmação feita pelo Papa Pio X, em 1906, que continuou vigente por muito tempo, inclusive após o Concílio: “Resulta que esta Igreja, por sua essência, é uma sociedade desigual, quer dizer, uma sociedade que compreende duas categorias de pessoas: a dos pastores e a do rebanho; os que ocupam um posto nos diferentes degraus da hierarquia e a multidão de fiéis. E estas categorias são de tal maneira distintas entre elas que só no corpo pastoral residem o direito e a autoridade necessários para promover e dirigir todos os membros em direção à finalidade da sociedade. Quanto à multidão de fieis, não tem outro direito senão o de deixar-se conduzir e de seguir seus pastores como um dócil rebanho”[2]. Penso ser desnecessário qualquer comentário acerca de tal afirmação, a não ser revelar uma dúvida que, certamente, não é só minha: será que esta mentalidade perdura ainda hoje em alguns setores da Igreja? A segunda – a que “resgatou” o leigo católico – está expressa nos Documentos Conciliares e diz que o leigo / a leiga é aquele / aquela que, vivendo no meio das realidades do mundo, como verdadeiro discípulo de Jesus e enviado por Ele, pela palavra e pelo testemunho de vida, anuncia o Reino de Deus. Essa vocação e missão dos leigos nascem do seu próprio batismo. O leigo não é um batizado de segunda classe. O leigo não é inferior ao padre, ou ao bispo, ou ao Papa A única diferença é que estes – consagrados pela ordens sagradas – ocupam funções diferentes no seio do Povo de Deus. Vejamos o que nos diz São Pedro em sua Primeira Carta: “Mas vós sois a gente escolhida, o sacerdócio régio, a nação santa, o povo que ele conquistou, a fim de que proclameis os grandes feitos daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa. (1 Pd 2, 9). Todos, sem exceção – bispos, padres, leigos, religiosos –, somos “gente escolhida, sacerdócio régio”. Somos Povo de Deus. Infelizmente uma certa tradição mal interpretada e mal aplicada tem reduzido o leigo a simples auxiliar, ajudante ou colaborador dos pastores. Todos fazemos parte da Igreja de Cristo. Ninguém é Igreja sozinho. Todos somos Igreja-comunidade. Todos “formamos um só corpo assim como acontece com Cristo”. 

2. O leigo no Documento de Aparecida. Quarenta e duas (42) vezes aparece o leigo nesse Documento de suma importância e conclusivo da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe (Maio/07, Aparecida). Nele, em todos os seus dez capítulos, nossos pastores resgatam a vocação e missão dos leigos como discípulos missionários de Jesus Cristo nesta hora de imenso esforço evangelizador na América Latina e do Caribe. Para não nos estendermos muito, basta uma única citação, a do número 174: “Os melhores esforços das paróquias neste início do terceiro milênio devem estar na convocação e na formação de leigos missionários. Só através da multiplicação deles poderemos chegar a responder às exigências missionárias do tempo atual. Também é importante recordar que o campo específico da atividade evangelizadora leiga é o complexo mundo do trabalho, da cultura, das ciências e das artes, da política, dos meios de comunicação e da economia. Assim como nas esferas da família, da educação, da vida profissional, sobretudo nos contextos onde a Igreja se faz presente somente por eles. 

3. Como chamar os Movimentos nos quais os leigos e leigas são maioria? Diante do que acabamos de refletir, parece-nos coerente e mais de acordo com as dimensões do Corpo Místico de Cristo – “fomos batizados num só Espírito para formarmos um só Corpo” – assumir a expressão usada pelo Papa João Paulo II, ao falar aos Movimentos e Novas Comunidades Eclesiais, em Pentecostes de 1998 e, agora, já consagrada pelos próprios Documentos da Igreja. Assim, em vez de “movimentos laicais”, deveríamos nos expressar como “movimentos eclesiais”, manifestação mais autêntica da Igreja-comunhão, Igreja-missão, Igreja-Povo de Deus e não apenas na sua forma organizativa de Igreja – hierarquia e laicato – como se fôssemos duas classes distintas na mesma Igreja. Lembrando uma vez mais o Documento de Aparecida, basta citar o título do número 311: “Os movimentos eclesiais e novas comunidades”, dos quais o documento fala até o número 313.

 

O nosso MCC, por exemplo, nasceu no seio da Igreja, há quase sessenta anos, por iniciativa de uma parcela completa do Corpo Místico, isto é, com o concurso de jovens leigos, orientados por sacerdotes, apoiados por seu bispo. Isso significa que, mesmo sendo um movimento que não começou por iniciativa da hierarquia, o MCC foi sempre um verdadeiro movimento eclesial, no sentido de que se desenvolveu, no seu país de origem, a Espanha, e se espalhou por todo o mundo, valorizando sempre esse caráter eclesial – a maioria de seus integrantes é leiga (como de resto ocorre com todos os demais movimentos e com a própria Igreja!), mas sacerdotes e bispos têm nele sua tarefa e sua missão. De fato, não fora o MCC um movimento realmente eclesial, não teria a Santa Sé concedido a ele, através do PCL, o reconhecimento canônico, nem teria aprovado o Estatuto do Organismo Mundial, o órgão encarregado de representá-lo, em âmbito mundial, diante da própria Igreja e dos demais movimentos eclesiais.

 

Termino renovando meu desejo sincero de que, motivados pelo Dia do Leigo e da Leiga, na Festa de Cristo Rei do Universo, possamos continuar descobrindo, com imensa alegria e com maior responsabilidade, que “ele capacitou os santos (nós, seus consagrados e leigos) para a obra do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo, até chegarmos todos juntos, á unidade da fé e no conhecimento do Filho de Deus, ao estado de adultos, à estatura de Cristo em sua plenitude” (Ef 4,12-13).

 

Abraço fraterno do irmão e amigo no Senhor Jesus

 

Pe.José Gilberto Beraldo

Assessor Nacional MCC



[1] Prefácio da Missa de Cristo Rei

[2] (Pio X, Encíclica “Vehementer Nos”, 11/02/1906).