Estatuto Social

CARTA MENSAL - ABRIL 2008

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“... Eles, porém, insistiram: ‘Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando’!... Depois que se sentou à mesa com eles, tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu a eles.... Nesse momento, seus olhos se abriram, e eles o reconhecerem... Então um disse ao outro: ‘Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?’. Naquela mesma hora, levantaram-se a voltaram para Jerusalém, onde encontraram reunidos os Onze e os outros discípulos... Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão” (Lc 24, 28-35).   

Meus amados leitores e leitoras, “ressuscitados com Cristo e cuja vida está escondida, com Cristo, em Deus” (Cl 3,1.3).

 

Neste ano, a celebração dos mistérios pascais, fonte essencial para o alimento da nossa fé no Ressuscitado, transcorre durante todo o mês de abril até o segundo domingo de maio. É o tempo que a Igreja nos oferece até o Pentecostes, para refletirmos sobre todos os acontecimentos que marcaram a presença de Jesus ressuscitado e vivo no meio dos seus discípulos, confirmando-os na fé e fortalecendo neles a certeza de sua presença “todos os dias, até o fim dos tempos” (Cf. Mt 28,20). Dentre todos os episódios narrados neste tempo de alegria e de esperança numa vida nova (relato do terceiro domingo do tempo pascal), fixo-me sempre num texto de minha predileção, cujo comentário, ainda que breve, desejo partilhar com vocês, meus leitores e leitoras. Trata-se do episodio dos discípulos de Emaús. Proponho-lhes que os acompanhemos na sua caminhada e na sua reação à aparição de Jesus, refletindo sobre a nossa própria caminhada e nossas reações. 

 

1. Sensibilidade para reconhecer o Ressuscitado - Os discípulos de Emaús estavam encontrando muita dificuldade em acreditar “nas coisas que tinham acontecido”, pois “estavam como que cegos e não o reconheceram”.  Com muita freqüência, nós também, como eles, no decorrer de nossa caminhada, encontramos dificuldades em reconhecer Jesus Ressuscitado, quer por cegueira pessoal quer pelos “fantasmas” e ídolos que nossa cultura de morte nos apresenta. De fato, o brilho que o mundo nos apresenta normalmente bloqueia nossa capacidade de ver e encontrar a verdadeira “luz do mundo”, para, depois, comunicá-la a esse mesmo mundo.   

 

São muitos os obstáculos que obscurecem nossa visão; são muitos os “fantasmas” que nos cegam: preocupações, em muitos casos até inúteis, com a vida; a vaidade; orgulho; ânsia do ter; as “necessidades desnecessárias”; ruídos ensurdecedores da publicidade que apresenta a verdade como se fosse mentira e a mentira como verdade, obscurecendo assim os nossos olhos, deformando o nosso subconsciente, criando uma mentalidade que, por sua vez, condiciona o nosso comportamento e muda o modo de ver as coisas ao estabelecer novos critérios e valores distantes do projeto de Deus. Lembramos o que nos dizem os Bispos da América Latina no Documento de Aparecida: “A maioria dos meios de comunicação de massa nos apresentam agora novas imagens, atrativas e cheias de fantasia” (DA 38). Ou, ainda – lembrando mais uma vez, que vivemos numa cultura de emoções e não da razão - o excesso de emoções que nos impede de ver a luz do mundo que é o Cristo ressuscitado. Um exemplo: quantas vezes, ao analisar os frutos deste ou daquele Movimento, Encontro ou Retiro, nos queixamos que os frutos são passageiros e os bons propósitos transitórios. Não seria por ter carregado demasiadamente na provocação das emoções e não ter acompanhado de perto as decisões das pessoas a quem anunciamos o “Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6), as quais deveríamos ter levado à uma opção totalizante por Ele? Enquanto estavam dominados pelas fortes emoções de tristeza, os discípulos de Emaús não tinham condições de reconhecer o Ressuscitado. Nós também, só o haveremos de reconhecer no momento em que espantarmos os “fantasmas” que nos cegam e tranqüilizarmos o nosso coração.  “Ao partir o pão” na intimidade com Jesus, os nossos olhos, como os dos discípulos, vão se abrir e reconheceremos Jesus. Só então, discípulos que queremos ser, seremos também missionários como os de Emaús que “contaram o que tinha acontecido pelo caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão”.  Ainda do Documento de Aparecida: “Conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossas vidas, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DA 29).

 

2. Deixar arder o coração ao reconhecer Jesus vivo e ressuscitado - Estou convencido que aqui se esconde o segredo que nos ajudará a abrir os olhos da fé, como aconteceu com aqueles discípulos: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” Um exemplo luminoso e transpirando ardor evangélico  é o do Apóstolo São Paulo. De tal forma ardia o seu coração por Cristo que do ardor do seu coração falava como se fosse uma “loucura”. Na sua Primeira Carta aos Coríntios, cinco vezes se refere à “loucura”: a “pregação da cruz é loucura para os que são salvos”; o mundo só conheceu a Deus pela loucura da pregação; o Espírito de Deus parece loucura ao homem não-espiritual; para tornar-se sábio é preciso fazer-se louco (Cf. 1Cor 1,18.21.25;2,14; 3,19). E, finalmente, vem a explosão de um coração ardente de amor por Jesus Cristo: “Oxalá pudésseis suportar um pouco de loucura de minha parte” (2Cor 11,1). Meus amados, deixo-lhes e a mim também a mesma inquietação dos discípulos de Emaús: será que está o nosso coração ardendo de amor e, - porque não? – de uma verdadeira paixão pelo Senhor Jesus? “Fogo eu vim lançar sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lc 12,49).   Não foi assim com um São Francisco de Assis, uma Santa Teresinha do Menino Jesus, uma Santa Elizabeth da Trindade e, hoje, um João Paulo II, o Grande só para ficar em alguns dos que nos precederam na fé? E porque não em cada um de nós? Por acaso você também, não tem um coração capaz de arder em chamas de amor pelo Cristo Ressuscitado “vossa vida” que “quando se manifestar, então vós também sereis manifestados com ele, cheios de glória”? (Cf. Cl 3,4).

 3. Levantar-se e ir depressa contar aos demais o que acontece no caminho e como você reconhece Jesus  - É missão da Igreja, missão de todo discípulo que, reconhecendo o Ressuscitado, “vai depressa contar aos outros”  pela palavra e pelo testemunho de vida que Ele está vivo junto de nós. “Quando cresce no cristão a consciência de se pertencer a Cristo, em razão da gratuidade e alegria que produz, cresce também o ímpeto de comunicar a todos o dom desse encontro. A missão não se limita a um programa ou projeto, mas em compartilhar a experiência do acontecimento do encontro com Cristo, testemunhá-lo e anunciá-lo de pessoa a pessoa, de comunidade a comunidade e da Igreja a todos os confins do mundo (cf. At 1,8) (DA 145).

Amados leitores e leitoras: termino deixando-lhes meus votos de que, como os discípulos de Emaús e apesar de nossas limitações, saibamos reconhecer o Senhor Ressuscitado e, ardendo de amor por Ele, ter a coragem de anunciá-lo com alegria.

Pe. José Gilberto Beraldo                               Assessor Eclesiástico Nacional                                         E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.