Estatuto Social

Carta Mensal - Dezembro 2008

Avaliação do Usuário

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

Carta Dez/08 – (112ª.) 01/12/2008

 “Jesus, porém, uma vez que permanece para sempre, possui um sacerdócio que não passa. Por isso, ele tem poder ilimitado para salvar aqueles que, por seu intermédio, se aproximam de Deus, já que está sempre vivo para interceder por eles. Tal é precisamente o sumo sacerdote que nos convinha: santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores e elevado acima dos céus” (Hb 7,24-27).  

Meus amados e perseverantes irmãos e irmãs, participantes desta reflexão mensal:

Fortalecidos pela graça do Pai, irmanados pela Palavra que é o Filho e iluminados pelo Espírito Santo, chegamos, agradecidos à Trindade Santíssima, à nossa 112ª. Carta mensal. 

Estando já em dezembro, é natural que devêssemos refletir sobre o Advento e o Natal. Entretanto, meus amados, permitam-me abrir uma exceção e, deixar-lhes a busca de temas para reflexão sobre essas celebrações natalinas em outras abundantes e maravilhosamente ricas fontes para este tempo litúrgico. Permitam-me, pois, dedicar esta última carta do ano a um acontecimento muito pessoal e, ao mesmo tempo, a uma celebração que, de uma forma ou de outra, diz respeito à comunidade eclesial da qual faço parte - vocês e eu mesmo. Como sabem alguns, estou vivendo neste ano, um ano especial de ação de graças, um ano de jubileu; o ano do Jubileu de Ouro de minha Ordenação Sacerdotal. De fato, o dia 20 de dezembro de 1958 marcou indelevelmente e para sempre a minha vida, pois foi o dia no qual o Senhor me chamou definitivamente para o discipulado, o dia no qual que me consagrou para “cuidar da messe” através do ministério sacerdotal.  Em torno desse acontecimento, é que desejo propor-lhes três pontos para reflexão.

1. Jesus Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote e fonte de todo sacerdócio  -  Pode-se dizer que a Carta aos Hebreus - da qual citei acima alguns versículos – é um escrito eminentemente cristológico. Isto é, tem como eixo principal de sua doutrina, a pessoa de Jesus, Sumo e eterno Sacerdote. Entretanto, afirmam alguns estudiosos especialistas da Palavra de Deus que o autor da Carta aos Hebreus “não pretende acentuar o sacerdócio e o sacrifício e, sim, substitui o sacerdócio e o sacrifício pela única “auto-oferenda” que é a vida e obra de Jesus, de uma vez para sempre. O sacerdócio de Jesus é o sacerdócio da vida, como deve ser também o do cristão “[1]. De fato, é este o aspecto que nos diz respeito mais de perto, quando insistimos na alegria do encontro com Jesus Cristo. Na verdade, é este o sacerdote que desejamos e que necessitamos: “santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores...”. Cristo é o sumo sacerdote misericordioso e fiel (Heb 2,17; cf. 3,2.5), possui um 'sacerdócio que não passa’(Heb 7,24), ‘oferecendo-se a Si mesmo sem mácula a Deus' (Heb 9,14). Temos, pois, 'um sumo sacerdote... Provado em tudo, à nossa semelhança, exceto no pecado', um sumo sacerdote que sabe 'compadecer-se das nossas fraquezas' (cf. Heb 4,15). É nos Evangelhos que vamos nos encontrar com este “Sumo Sacerdote”, com a sua palavra, seus ensinamentos e, sobretudo, com suas ações e seu testemunho. É pela sua vida que Jesus deixa a todos os que o seguem, mas, sobretudo, aos que Ele mesmo escolhe para assumir a missão do pastoreio e de seus ministros junto ao seu próprio povo, a comunidade eclesial, isto é, aos seus sacerdotes a herança de sua missão evangelizadora.

 2. O sacerdócio do Povo de Deus – Ao chamar Moisés para o alto de uma montanha, o Senhor o incumbiu de dar um recado ao povo eleito dizendo-lhe, entre outras coisas: “ ...vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6). São Pedro, na sua Primeira Carta cujo conteúdo é todo cristocêntrico, lembra aquelas palavras do Êxodo e escreve: “Mas vós sois a gente escolhida, o sacerdócio régio, a nação santa...” (1Pd 2,9a). Um importante documento da Igreja Católica, a Constituição dogmática sobre a Igreja (Lumen Gentium) do Concílio Vaticano II, reafirma e resume assim o sacerdócio comum do Povo de Deus e o sacerdócio ministerial: “Com efeito, o sacerdote ministerial, pelo seu poder sagrado, forma e conduz o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico fazendo as vezes de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o povo; os fiéis, por sua parte, concorrem para a oblação da Eucaristia em virtude do seu sacerdócio real, que eles exercem na recepção dos sacramentos, na oração e ação de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade operosa” (LG 10).  

3. Como deve o sacerdote, discípulo missionário e pastor do Povo de Deus assemelhar-se a Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote? – Essa pergunta faço-a a mim mesmo por ocasião do meu Jubileu áureo de Ordenação Sacerdotal. O que ensinou Jesus e como ele mesmo se comportou?  Como Ele quer que sejamos nós, seus ministros e servidores do seu povo? Evidentemente podemos descobrir esse “como” nas orientações passadas aos seus enviados, mas, sobretudo, através do seu próprio comportamento e testemunho de vida. Durante todo o tempo que viveu no meio do seu povo e por seus ensinamentos e obras, Jesus se manifestou misericordioso com os pecadores de todas as classes, homens e mulheres, mesmo com os empedernidos fariseus (ainda que, em várias ocasiões, os tenha chamado de sepulcros caiados, hipócritas, etc.); compassivo, curando doentes e atendendo aos mais necessitados, mesmo estando no interior do templo e em dia de sábado, contrariando os legalistas de plantão; benigno, sempre pronto a perdoar como à adúltera e a todos os pecadores, ainda que fossem os odiados cobradores de impostos, aproveitando para dizer aos seus censores e aos moralistas presentes que atirassem nela a primeira pedra quem não tivesse pecado; bondoso, acolhedor das pessoas mais simples do povo e das crianças, colocando-as sobre seus joelhos e ensinando aos discutiam sobre quem haveria de ser o primeiro ministro no Reino de Deus, que “quem acolher em meu nome uma dessas crianças, estará acolhendo a mim mesmo”;  enérgico e firme como no episódio da expulsão dos vendilhões do tempo; sensível às dores dos enfermos e dos mais pobres;  despojado, como quando, ao convidar alguém para segui-lo lhe diz que “as raposas têm suas tocas mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”; servidor do seu povo, como quando afirma que veio para servir e não para ser servido;  fiel à vontade do Pai como quando, no alto da cruz e no auge do sofrimento, suplica-lhe que dEle passasse aquele cálice, mas que do Pai fosse feita a vontade. Ainda mais, Jesus nos quer sempre dispostos à renúncia radical para segui-lo e prontos e generosos para abraçar a cruz

Confesso, caros irmãos e irmãs, que mil e mil vezes, durante toda essa minha já longa vida ministerial, tenho tentado dar uma resposta coerente com a fonte do meu sacerdócio que é o próprio Jesus. É verdade que nem sempre – e por mil motivos, incluídas as costumeiras desculpas: fraqueza humana, falta de tempo, falta de colaboração, incompreensões, injustiças, abandono por parte de alguns irmãos, solidão, etc. – o tenho conseguido. E por tudo isso, nesse momento de ação de graças, é que também peço perdão a Deus e à comunidade pela qual sou responsável.

Por isso é que, nesta hora de celebração de minhas Bodas de Ouro sacerdotais, a todos suplico que me ajudem na ação de graças a Deus e que, como Ele – espero e confio -, saibam relevar minhas inúmeras faltas e omissões. E rezem por este modesto servidor e amigo, pedindo sempre a intercessão de Maria, a primeira discípula missionária de seu Filho, Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote. A Ele a e Ela entrego os dias que me restam do meu ministério, esperando ser digno de ouvir, um dia, de sua boca: “Já não o chamo servo...eu o chamo amigo...” (cf Jo 15,15).  

Concluo desejando a todos e a todas santas festas de Natal do Senhor Jesus,

Pe. José Gilberto Beraldo

Assessor Nacional MCC

E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.   


[1] Cf Bíblia Sagrada – Tradução da CNBB, p.1406.