Estatuto Social

Carta Mensal Março 2009

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Carta MCC Brasil – Março 2009 (115ª) 

“Sabeis em que momento estamos: já é hora de despertardes do sono.Agora, a salvação está mais perto de nós do que quando abraçamos a fé. A noite está quase passando, o dia já vem chegando: abandonemos as obras das trevas e vistamos as armas da luz” (Rm 13, 11-12).       

Amados irmãos e irmãs, saúdo a todos vocês, peregrinos que, vivendo os dias sagrados da quaresma, se preparam pela esperança da ressurreição, para o júbilo da Páscoa da Vida!   

No último dia 25 de fevereiro, com toda a Igreja Católica, celebramos a quarta-feira de Cinzas que, abrindo o tempo da Quaresma de 2009, estende-se até a Páscoa da Ressurreição. São Paulo chama nossa atenção para a importância desse tempo sagrado (“Sabeis em que momento estamos”) e, ao mesmo tempo quer sacudir o nosso torpor e espantar a nossa preguiça lembrando-nos que “já é hora de despertardes do sono” (Rm 13, 11b). É um tempo especial para viver o tripé já tão nosso conhecido por todos nós: - “oração, jejum e esmola” - e que se sintetiza no termo  “conversão”.   Entretanto – pergunto – de que maneira falar e refletir sobre “quaresma” nas atuais conjunturas, até culturais: ou de um consumismo compulsivo, ou de um hedonismo levado até aos limites do abuso do corpo próprio e alheio, ou de uma violência em escala mundial, mas que acaba se concretizando na mentalidade e na vivência de pessoas e de inteiros grupos humanos, ou da satisfação dos próprios desejos desordenados em relação à ética, à justiça, à moral, ao respeito mútuo, ou do “levar vantagem em tudo”, o que já se tornou uma maneira prática de aproveitar oportunidades em detrimento dos direitos do próximo? Por outro lado, como explicar e pedir jejum e abstinência de carne a milhões de seres humanos, homens, mulheres e crianças abandonados até mesmo por aqueles que, dizendo-se católicos, mas sem a mínima consciência do significado da cerimônia, comparecem à igreja na quarta-feira de cinzas para recebê-las em suas cabeças, reduzindo gesto tão profundo e cheio de sentido penitencial a um mero ritual tradicional? Será que seus ouvidos estavam tão abertos que puderam ouvir uma das advertências do celebrante que, ao impor as cinzas, lembrou-nos a palavra de Jesus, logo no início de sua vida pública: “Convertei-vos e crede no Evangelho”? (Mc 1,14b). Como falar de penitência e jejum a pessoas tratadas, muitas vezes como animais, morrendo de fome à beira das calçadas e das sarjetas ou debaixo de viadutos e nos desvãos imundos, tanto das grandes como das pequenas cidades e nos campos? Como lembrar a “abstinência de carne” às quartas e sextas-feiras da quaresma, a pessoas que só vêem carne quando exposta nas vitrines das casas que a comercializam e, quando muito, só sentem o seu cheiro?Deixando essas perguntas como um pano de fundo, apresento-lhes alguns pontos, a meu ver importantes, para reflexão e que, da reflexão, possam passar à prática da nossa vivência quaresmal através da conversão concretizada no tripé: oração, jejum e esmola. 

1.                  Conversão. Essa é uma das palavras-chaves do tempo da Quaresma. Melhor dizendo, é a palavra-chave que sintetiza o tripé: oração, jejum e esmola. Ao aconselhar-nos a “abandonar as obras das trevas e vestir as obras da luz”, São Paulo nos mostra a necessidade de uma volta radical à luz divina que deveria brilhar em todas as nossas ações. Volta radical que significa, concretamente, conversão integral para os caminhos de Deus. Que luz divina é essa? Primeiramente, é a luz do amor, da fraternidade, de perdão, da justiça. É, enfim, a luz das bem-aventuranças. De fato, logo após o anúncio das bem-aventuranças, Jesus acrescenta: “Assim, brilhe a vossa luz diante das pessoas, para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16). Converter-se, pois, é revestir-se da luz de Cristo e irradiá-la em torno de si: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). São Paulo, como já citamos, aconselha-nos a “vestir as armas da luz”. Converter-se não significa mudar apenas algumas atitudes, alguns gestos, ou alguma forma de rezar. Converter-se para Cristo, para a fonte da luz significa mudar de mentalidade; passar de uma maneira puramente humana de ver e julgar pessoas, fatos e acontecimentos para uma maneira divina, isto é, ver e julgar com os olhos de Deus. Nossos Pastores no Documento de Aparecida, assim se expressam ao falar de conversão: “A conversão é a resposta inicial de quem escutou o Senhor com admiração, crê n’Ele pela ação do Espírito, decide-se ser seu amigo e ir após Ele, mudando sua forma de pensar e de viver, aceitando a cruz de Cristo, consciente de que morrer para o pecado é alcançar a vida. No Batismo e no sacramento da reconciliação se atualiza para nós a redenção de Cristo” (DA 278 b). Mas, de acordo com o mesmo DA, a conversão não é apresentada, apenas, como uma “resposta inicial”. Ela continua na vida daquele que já tem uma caminhada de discípulo de Jesus e que anseia pela maturidade do seguimento: “A pessoa amadurece constantemente no conhecimento, amor e seguimento de Jesus Mestre, aprofunda no mistério de sua pessoa, de seu exemplo e de sua doutrina. Para isso são de fundamental importância a catequese permanente e a vida sacramental, que fortalecem a conversão inicial e permitem que os discípulos missionários possam perseverar na vida cristã e na missão em meio ao mundo que nos desafia” (DA 278C). Conversão, sendo tarefa para uma vida inteira, encontra especial repercussão na vida do discípulo durante este tempo da Quaresma. Porque conversão é optar por um novo projeto de vida. Vamos, pois, aproveitar “o momento em que estamos” para uma séria “reelaboração” da nossa mentalidade a fim de nos convertermos em melhores discípulos e mais eficazes evangelizadores?

 2.                  Oração, jejum e esmola nos tempos de hoje. Continuam sendo valores perenes do cristianismo e fundamentais para o discípulo de Jesus, ainda que assumindo distintos matizes com o decorrer dos tempos e mudanças de cultura. Nos dias que correm, jejum e abstinência, por exemplo, são uma necessidade para os que sonham com um corpo “sarado”, escultural,  não importando o tamanho do sacrifício e da renúncia. Morrem de anorexia ou de excesso de privação alimentar os (as) modelos que ambicionam brilhar nas passarelas da exibição do esplendor físico, buscando satisfazer sua vaidade, acumular muito dinheiro, fama e celebridade. Essa é a mentalidade da moda, enquanto dar esmola é dar do que sobra, atirando uma moedinha aqui, outra ali nas mãos ou no copinho plástico dos pedintes miseráveis à beira das calçadas. Se, durante séculos tais valores foram adquirindo notas individualistas e destinados a “salvar a própria alma”, nós, os cristãos de hoje, temos que superar as barreiras individualistas, características de um pietismo ultrapassado e anacrônico. Os cristãos de hoje, recebendo a proposta quaresmal da oração, do jejum, da esmola e da abstinência deveríamos todos dar a esse tripé uma dimensão de solidariedade, de partilha e de comunhão fraterna, sobretudo com os excluídos e marginalizados. É, pois, nessa dimensão que nos esforçaremos para viver intensamente nossa vida cristã, sobretudo no tempo quaresmal do ano de 2009.  

Para todos desejo uma santa quaresma profundamente solidária, unidos todos aos sofrimentos de Cristo e às dores de Maria, na expectativa de uma gloriosa Páscoa da Ressurreição.

Um carinhoso abraço fraterno do irmão e amigo,     

Pe. José Gilberto Beraldo

Assessor Eclesiástico Nacional  E-mail:Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.