Estatuto Social

Carta Mensal Dezembro/2009

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Carta MCC Dez/09 – (125ª.) 

“Esta era a luz verdadeira que, vindo ao mundo, a todos ilumina. Ela estava no mundo, e o mundo foi feito por ela, mas o mundo não a reconheceu. Ela veio para o que era seu, mas os seus não a acolheram. A quantos, porém, a acolheram, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus: são os que creram no seu nome” (Jo 1,9-11). 

Aos meus amados leitores e leitoras,  Oferecendo-lhes para reflexão a última carta deste ano, desejo muita paz e muita luz neste tempo de preparação e de celebração do Santo Natal: Dia desses, em minha última viagem de carro, assim que liguei o rádio ouvi uma das tais “músicas natalinas” reinterpretada ao sabor de um ritmo moderno, digamos “pop”, seguida de uma voz que, oferecendo à ânsia consumista dos ouvintes determinado produto também “natalino”, quase que num sussurro dizia: “afinal, já era tempo de alguém reinventar o natal!”. Faço essa introdução para propor uma breve reflexão sobre um Natal-história e um Natal-Acontecimento-Mistério.   

1.O Natal-história – Na incerteza da data exata do nascimento de Jesus, os cristãos dos inícios da Igreja, apropriaram-se de uma festa pagã celebrada em torno do dia 25 de dezembro, a festa do Sol, para “cristificá-la” com a celebração do Natal de Jesus. Em conseqüência, em torno desta data criou-se e se firmou uma tradição profundamente marcada pelo nascimento de Jesus. Porém, nos nossos tempos, a mentalidade paganizada de nossa cultura quer retomar dos cristãos o sentido do Natal, conferindo-lhe um sabor nitidamente pagão, distanciado, portanto, da tradicional cultura cristã. Tal mentalidade desfigura, à sua imagem e semelhança, a autêntica festa do nascimento de Jesus  Assim, do Natal ouve-se falar de inúmeras maneiras. Escrevem-se rios de palavras. Compõem-se letras e músicas com sabores natalinos. Lê-se mais ainda conferindo ao Natal muitas interpretações. Aliás, parece que o Natal cada um o interpreta como quer, insistindo-se, até, em proclamar o tal “espírito de natal”! Mas quase sempre, para não dizer sempre, somos todos condicionados pelos meios de comunicação: rádios, revistas, jornais, mas, de maneira muito especial e extremamente marcante pela TV. De fato, a TV faz a cabeça das pessoas. Não só a cabeça. Faz também o coração. Condiciona os desejos.  Impõe exigências. Excita ambições. E, hoje, o Natal da TV e dos meios de comunicação em geral, é o do consumo. O Natal da TV deste e de outros anos é o que promete ser o “mais feliz de sua vida”. Entrar no “espírito do Natal” significa comprar tudo o que a TV está colocando nos limites das necessidades do expectador. Então, para a grande maioria das pessoas, celebrar o natal hoje nada mais é do que consumir exageradamente, comer e beber até não poder mais, dar e receber muitos presentes - alguns tão inúteis que, depois, você não sabe o que fazer com eles! Dessa forma, a humanidade volta a desconhecer a Luz que brilha no seu meio e a recusá-la quase que regredindo ao paganismo primitivo: “Ela (a Luz) estava no mundo, e o mundo foi feito por ela, mas o mundo não a reconheceu. Ela veio para o que era seu, mas os seus não a acolheram”. 

2. O Natal-Acontecimento-Mistério - Mas, para nós, cristãos, católicos de todo o mundo, o Natal é aquele “Acontecimento-Mistério”, é a “Luz que está neste mundo”, é o próprio Cristo Jesus! Ao falarmos em “Acontecimento” lembramos Aquele cuja presença dividiu a história humana num “antes” e num “depois”. Mais importante do que isso: encarnando-se na história dos homens, a Luz mergulhou a humanidade na sua divindade. É sempre com muita emoção que lembro essa assombrosa realidade, quando, celebrando a Eucaristia, ao deixar cair uma gota de água no cálice contendo o vinho que vai ser consagrado, pronuncio aquelas palavras densas de significado: “Pelo mistério desta água e deste vinho, possamos participar da divindade dAquele que se dignou assumir a nossa humanidade!”. De fato, o sermos filhos de Deus significa sermos escolhidos e chamados para sermos introduzidos no mais fascinante mistério da nossa fé que o mistério da Santíssima Trindade. Leia o que afirma num dos seus Sermões de Natal o grande Doutor da Igreja, Santo Agostinho: “Caríssimos irmãos, nosso Senhor Jesus Cristo que desde a eternidade é o Criador de todas as coisas nascendo hoje de sua mãe, tornou-se nosso Salvador. Por sua vontade, nasceu hoje para nós no tempo, a fim de nos conduzir à eternidade do Pai. Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus. Para que o homem comesse o pão dos anjos, o Senhor dos anjos se fez homem”  (Sermão 13 de Tempore: Patrologia Latina 39, 1097-1098).

3. Como celebrar o Natal “acolhendo a Luz”?“A quantos, porém, a acolheram (a LUZ), deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus: são os que creram no seu nome”. Muito sabiamente a Igreja, através da liturgia do Advento, prepara-nos para acolher a Luz de Deus. Na medida de suas possibilidades, caminhe por um itinerário como este: a) pratique a “leitura orante da Palavra de Deus” contida  nas leituras diárias da missa; b) a partir do dia 17, a liturgia da hora das Vésperas, propõe sete antífonas, chamadas de “antífonas Oh!”, que precedem o Cântico de Nossa Senhora, tão ricas de conteúdo e de santa expectativa e que já preparam bem proximamente a celebração do Nascimento. Dedique alguns minutos para  rezá-las com vagar e com muito fervor. Dia 17: “Ó Sabedoria, que saístes da boca do Altíssimo, e atingis até os confins de todo o universo e com força e suavidade governais o mundo inteiro: oh vinde ensinar-nos o caminho da paciência”; dia 18: “Ó Adonai, guia da casa de Israel, que apareceste a Moisés na sarça ardente e lhe destes vossa lei sobre o Sinai: vinde salvar-nos com braço poderoso! dia 19: Ó Raiz de Jessé, ó estandarte levantado em sinal para as nações! Ante vós se calarão os reis da terra e as nações implorarão misericórdia: Vinde salvar-nos! Libertai-nos sem demora!; dia 20: Ó Chave de Davi, Cetro da casa de Israel, que abris e ninguém fecha, que fechais e ninguém abre: vinde logo e libertai o homem prisioneiro, que nas trevas e na sombra da morte está sentado; dia 21:  “Ó Sol nascente justiceiro, resplendor da Luz eterna: Oh, vinde e iluminai os que jazem entre as trevas e na sombra do pecado e da morte estão sentados; dia 22: Ó Rei das nações, Desejado dos povos, ó Pedra angular, que os opostos unis: Oh, vinde e salvai este homem tão frágil, que um dia criastes do barro da terra!”;  e, enfim, talvez a mais bela de todas, já quase às vésperas do grande dia, no dia 23: “Ó Emanuel: Deus conosco, nosso Rei Legislador, Esperança das nações e dos povos Salvador: Vinde enfim para salvar-nos, Ó Senhor e nosso Deus. Essas reflexões, quer individuais ou comunitárias poderão ser uma valiosa contribuição para as grandes celebrações que se aproximam. Na noite e no dia de Natal, participe também  ativamente das celebrações da comunidade, sobretudo da Sagrada Eucaristia. Receba o Corpo e o Sangue de Jesus que, exclusivamente por amor, se entrega a todos nós. Mais do que em outras ocasiões, neste Natal assim participado, você sairá “cristificado”, isto é, transformado num outro Cristo-Menino-Deus-Salvador! Alegre-se com todos aqueles irmãos e irmãs que com você estarão partilhando as mesmas alegrias e as mesmas esperanças. Ali, em algum cantinho de sua igreja paroquial ou de uma capela, estará armado o tradicional presépio. Pode não ser o mais enfeitado, o mais bonito, o mais folclórico ou o mais iluminado presépio de cidade. Mas é o mais lindo da sua comunidade.  Detenha-se alguns instantes diante dele e deixe-se emocionar pelas figuras humildes, mas sugestivas de Maria, a Mãe que é de Deus e nossa também,  e de São José, o Pai adotivo de Jesus. Mas, sobretudo, deixe-se absorver pelo mistério que é aquela criancinha, aquele Menino, tão fraquinho na sua humanidade, mas Todo-poderoso na sua Divindade. E, sem desviar seus olhos do presépio, feche-os por um instante e você poderá ver ao seu redor, tantos irmãos e irmãs, adultos, jovens e crianças, que anseiam por um Natal que lhes é negado pela cobiça, pela ânsia do ter, pelo desejo de acumulação de uma sociedade egoísta, materialista e consumista. Saia correndo para fazer alguma coisa por eles. Uma ação que, embora passageira, poderá provocar em você mesmo, o desejo que oferecer a essas criaturas um Natal de justiça, de partilha, de alegria que dure o ano inteiro. Assim, como discípulo missionário do Menino, você poderá evangelizar começando a resgatar o autêntico sentido do Natal de Jesus. E, meu irmão, minha irmã, não esqueça: o mais autêntico “espírito do Natal” não está no consumo exagerado ou nos presentes dados ou recebidos, caros ou baratos ou na ceias mais ou menos fartas ou nas “festas natalinas” de esbanjamento e futilidades e, sim, na vivência e celebração pessoais e comunitárias de uma nova presença entre nós dAquele que foi e continua sendo a Luz enviada pelo Pai para inaugurar um novo tempo, o tempo do seu Reino de Amor!

Homenageando Maria, a Mãe do Menino-Luz  que renasce ouso fazer minhas estas palavras de Sto.Agostinho  no mesmo Sermão: “Que maravilhas, que prodígios, meus irmãos! As leis da natureza são alteradas no homem. Deus nasce, uma virgem concebe e unicamente a palavra de Deus fecunda a que não se uniu a homem algum. É ao mesmo tempo mãe e virgem; mãe que conserva a integridade virginal, virgem que gera um filho; permanece intacta, porém não infecunda. Só nasceu sem pecado aquele que não foi gerado por homem nem pela concupiscência da carne, mas pela obediência do Espírito”.  

Desejo-lhes  um Advento profundamente marcado por uma  fecunda  preparação para a solene celebração do dia do SOL DA JUSTIÇA  que, mais uma vez, como a verdadeira Luz, se levanta para “iluminar todos os povos e os que jazem nas trevas...”.

Uma SANTA e FELIZ celebração deste Natal de 2009 são os meus votos fraternos!            

Pe. José Gilberto Beraldo

Assessor Eclesiástico Nacional