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Carta MCC Brasil – Julho – 2014 (179ª.)

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Carta MCC Brasil - Julho - 2014 (179ª.)

“Acaso não sabeis que, no estádio, todos correm, mas um só ganha o prêmio?

Correi de tal maneira que conquisteis o prêmio. Todo atleta se impõe todo tipo de disciplina.

Eles assim procedem, para conseguirem uma coroa corruptível.

Quanto a nós, buscamos um coroa incorruptível" (1Cor 9, 24-25).

 

Amados irmãos e irmãs no amor do Senhor Jesus Cristo,

Estamos, ainda, em pelo andamento da Copa Mundial de Futebol aqui no Brasil. Antes de seguir com nossas reflexões sobre a “Alegria do Evangelho" (EG), penso valer a pena dedicar algumas linhas desta nossa Carta a uma curta reflexão sobre tal acontecimento visto sob a ótica de critérios cristãos.

1. A Copa Mundial de Futebol iluminada pelo olhar da fé cristã. No último número da Revista ALAVANCA o Assessor Nacional Adjunto do MCC do Brasil, Pe. Pedro Vidal de Souza publicou um oportuno e belo artigo intitulado “Nossos craques: nossos ídolos".[1] Entre outras indagações, Pe. Pedro deixou-nos esta: “Quem são os nossos “ídolos"? É a nossa consciência que nos vai dar a resposta e revelar a quem “idolatramos".

 Permitam-me, benévolos leitores, agradecendo ao caro colega, aproveitar-me desta oportunidade para um olhar mais abrangente sobre este evento mundial. Em primeiro lugar, é bom que fiquem muito claros o direito e a necessidade de todo ser humano ao descanso, à sadia diversão, à alegria e à festa não obstante as agruras, preocupações e o peso de cada dia. Desse modo, os exercícios físicos, as distrações e o mesmo esporte e sua competividade, reunindo pessoas e países, justificam-se por si mesmos. Nesse contexto, admiramos aqueles e aquelas que se destacam por seus dons naturais, por suas habilidades, pelos seus esforços e dedicação a ponto de se tornarem exemplos de renúncia a tantos prazeres naturais e de entrega total a um ideal (cf. citação bíblica acima).

Entretanto, aí é que moram a tentação e o risco. Tentação e risco de serem essas pessoas idolatradas como se minúsculos deuses fossem, por aqueles que lhes prestam culto e erigem altares, ainda que simbólicos. Transformados em “ídolos" dos novos tempos, adorados e aclamados, passam a comportar-se como tais, ainda que nem sempre e nem todos sejam modelos de ética e de solidariedade; ao contrário, sendo gananciosos, exibicionistas, ostensivos campeões do desperdício e da agressão aos mais pobres e excluídos. Sem falar, neste tempo de Copa Mundial de Futebol no Brasil, da oportunista, planejada e vergonhosa submissão política e social de todo um governo e de todo um país a uma entidade particular em detrimento das prementes necessidades básicas do povo brasileiro.

Afinal, não estamos aqui em ano de eleições políticas? E se lembrarmos que para tudo se prestam os ídolos do momento, poderemos concluir que de uma grande admiração passa-se ao um desmedido entusiasmo; de um desmedido entusiasmo a um fanatismo irracional; de um fanatismo irracional, à uma insana idolatria e de uma insana idolatria, finalmente, como já aconteceu com certos ídolos bem conhecidos, para um irracional culto pessoal. Culto em cuja “liturgia" não faltam os sons estrepitosos de cornetas irritantes e bumbos , e que terminam com os ídolos “caindo nos braços do povo", como estampam alguns meios de comunicação!

 Conclusão: da fé no único Deus verdadeiro dos cristãos, migra-se para a “fé em fulano ou sicrano, meu ídolo"; da confiança do Pai que está nos céus, para a “confiança nas chuteiras do ídolo preferido"...Vale lembrar que os ídolos têm “canelas de ferro e os pés parte de ferro, parte de barro e que, atingidos por uma pedra, transformam-se em palha no terreiro no final da colheita, palha que o vento carrega sem deixar sinal" (cf. Daniel, 2, 33-35). 


2. Continuação de nossas reflexões sobre a “Evangelii Gaudium". Alimentando a esperança de que possa estar sendo útil, continuo com o projeto de oferecer aos caros leitores e leitoras algumas breves reflexões em torno da Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium" - “A alegria do Evangelho" (EG) do nosso Papa Francisco. Faço notar que estes nossos comentários deveriam servir muito mais como motivação para um estudo mais aprofundado da EG do que uma espécie de ilusão para esgotar um assunto vital para a toda a Igreja e suas Comunidades, Associações e Movimentos eclesiais. Assim, terminado o Cap.I “Uma transformação missionária da Igreja", iniciamos com esta Carta, uma primeira parte do Capítulo II, “Na crise do compromisso comunitário".

Introdução (n.50-51)

Para os cristãos, não é bastante tomar consciência através de estatísticas ou de qualquer outro meio das mais distintas realidades que constroem a nossa vida e a vida da sociedade moderna. A EG volta nos lembrar que o seguidor de Jesus é convidado, ainda, para outro olhar, para uma outra fonte de discernimento que é o discernimento evangélico, não só sociológico: “É o olhar do discípulo missionário que se nutre da luz e da força do Espírito Santo". É urgente, pois, e necessário estudar os sinais dos tempos, em processo de humanização. Neste capitulo, diz o Papa, a EG vai tocar   em alguns aspectos apenas da realidade atual.

 

1. Alguns desafios do mundo atual (52-75)

A EG mostra um elenco de desafios que o mundo atual apresenta à evangelização. São desafios já bem conhecidos não só através de outros documentos da Igreja em todos os níveis, mas, ainda, apresentados e analisados por antropólogos, sociólogos e outros estudiosos das complexas transformações e mudanças pelas quais passa a humanidade. Nesse ponto a EG apresenta quatro “não" e três “desafios".

 

Quatro “Nãos" 

a) “Não a uma economia de exclusão". “Não matar". É urgente dizer não a uma economia de exclusão, que mata. A morte de frio de um mendigo não é notícia. A queda na bolsa o é. Jogar comida no lixo quando há pessoas com fome, é exclusão social. O ser humano tem sido considerado bem de consumo e descartável. Os excluídos não são só explorados, mas também resíduos e sobras.

b) “Não à nova idolatria do dinheiro". Na globalização da indiferença, os excluídos continuam a esperar. Aceitamos pacificamente o domínio do dinheiro sobre nós. Criamos novos ídolos e negamos a primazia do ser humano. Uma antropologia desequilibrada, reduzindo o ser humano ao consumo.

c) “Não a um dinheiro que governa ao invés de servir". Surge uma tirania invisível, tirando do Estado o poder de tutela social. Dívida, juros, corrupção ramificada e evasão fiscal egoísta matam. Com isso todas as realidades ficam frágeis e indefesas para agir. A ética estando fora das categorias do mercado leva a Deus; enquanto ideologizada cai no desequilíbrio e ordem social desumanos. Assim, excluir o pobre da participação nos bens é roubá-lo e tirar-lhe a vida. É impossível tirar a violência sem eliminar a exclusão e desigualdade.

d) “Não à desigualdade social que gera violência".  Costuma-se atribuir a violência aos pobres, que têm motivação na desigualdade. Com a exclusão reinante, nunca haverá verdadeira tranquilidade. O sistema social e econômico atual é injusto em sua própria raiz. O consumismo desenfreado e as estruturas injustas geram morte e levam ao crescimento da corrupção entre os governos, empresários e instituições.

 

Sendo pedagogicamente limitado nosso espaço, na próxima Carta vamos refletir sobre um momento de suma importância no contexto da EG que são os três desafios apontados pelo Papa Francisco.

 

Sugestão para reflexão pessoal e/ou em comunidade: primeiramente ler com atenção no texto original da EG os quatro “Nãos". Em seguida, o grupo poderá procurar analisar qual deles é o mais evidente, ou melhor, qual deles atinge em maior profundidade sua comunidade. Esta reflexão facilitará o caminho para, em seguida, identificar os desafios culturais, os da inculturação da fé e os da cultura urbana.

Despeço-me com um abraço amigo e fraterno,   

                                                                                                              Pe. José Gilberto BERALDO

Equipe Sacerdotal GEN                                                                                   



[1] Revista Alavanca, Abril, maio, junho 2014, p.18