Estatuto Social

Carta MCC Brasil – Agosto 2015 (180ª.)

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Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha. E transfigurou-se diante deles. Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar.... Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: ‘Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz’”

(Mc 9, 2-3.7)

Caríssimos irmãos e irmãs, pacientes leitores: estejam com todos vocês a luz do Senhor Jesus transfigurado e Ele mesmo de todos faça resplendente “luz do mundo", 

Andei buscando nos meus arquivos das Cartas mensais e não encontrei, nos últimos anos, alguma do mês de agosto na qual tenha feito referência à Transfiguração de Jesus (08/08), sinal profético da nossa própria transfiguração nEle: “Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criatura.  O que era antigo passou, agora tudo é novo" (1Cor 5,17). Proponho, portanto, que nesta nos detenhamos a refletir sobre aquele maravilhoso acontecimento e que repercussão tem ele na vida de um seguidor de Jesus, encerrando-a com uma referência ao Mês das Vocações celebrado na Igreja no Brasil.

 

1. O que é "experimentar". Convido-os, pois, a centrar sua atenção sobre nossa própria "transfiguração" a partir, não de teóricas considerações, mas de nossa experiência de cada dia, seguidores que queremos ser do TRANSFIGURADO. Experiência, aqui, no sentido de sua raiz latina "ex-perire", que, em tradução livre, pode significar, "sofrer", "viver na carne" determinado momento importante. E, ainda, renunciar a si mesmo - morrer para si mesmo - para assumir uma proposta reconhecida como essencial para a própria vida.

1.1. Transfigurados pela experiência da PALAVRA. É voz corrente que "você é aquilo que você ouve" ou, também, "você é aquilo que você fala"[1]! A serem aceitos tais ditos, a pessoa estará fazendo uma experiência viva de sua própria transfiguração pela palavra. E se aplicarmos esta afirmação à Palavra de Deus? Jeremias, já no Antigo Testamento, nos mostra como é fazer uma experiência da Palavra quando exclama: "Ao encontrar tuas palavras, eu as devorava. Tua palavra tornou-se meu gozo e alegria para o meu coração" (Jr 15,16a). O que pode acontecer, então, com aquele que escuta a voz do Pai saída da nuvem: "Escutai o que Ele diz"? "Escutar" é deixar-se penetrar no mais íntimo de si mesmo; é diferente de um "ouvir" que é, quase sempre, algo volátil, superficial e desinteressante... A Palavra-Jesus transfigurou-se no alto do monte Tabor. Deixemo-nos, pois, transfigurar, ainda que no chão de nossas vidas, iluminados também nós pela luz resplandecente, escutando, sempre atentos, a Palavra que é Jesus e, com Ele, tornando-nos palavras vivas do REINO DE DEUS.

1.2. Transfigurados pela experiência da ORAÇÃO. Com muita frequência aparece nos Evangelhos a pessoa de Jesus "subindo ao monte para rezar". Seria a oração de Jesus, alguma daquelas já inventadas pelos escribas ou pelos doutores da lei? Seria, quem sabe, algum peditório d’Ele ao Pai para ajudá-lo a fazer mais algum milagre ou preparar algum impacto para impressionar as multidões que iam atrás d’Ele? Certeza nos assiste, fundamentados no episódio da Transfiguração, para dizer que não era esse o tipo de oração de Jesus no alto do monte. Certamente, conversava com o Pai como "O FILHO AMADO", assim, com maiúsculas... Era a mais pura experiência da oração de Jesus que, ao descer do monte, transfigurado pela mesma oração, atraia as multidões como o "Caminho, a Verdade e a Vida"; como uma fonte inesgotável de bondade, de carinho, de acolhida, sobretudo dos mais fracos e desprezados da sociedade. Pergunte-se, então: sua oração ao Pai é uma experiência de diálogo pessoal, como a de Jesus? Sua oração o "transfigura" efetivamente para poder testemunhá-Lo ao descer do Tabor, colocando-se a serviço do Reino? Ou quantos livrinhos de orações - feitas por outros - você já consumiu por não haver ainda descoberto o que é "transfigurar-se" em filho ou filha ao dizer Pai-Nosso, voltando para o seu mundo resplandecente de luz divina? "Vós sois a LUZ do mundo e o SAL da terra" (Mt 5, 14a).

1.3. Transfigurados pela experiência da EUCARISTIA. Se pelas experiências da Palavra e da Oração podemos, também nós, nos transfigurar com Jesus, o que dizer da experiência da Eucaristia que - alimento físico do Corpo e do Sangue de d’Ele - com Ele nos transfigura e nos identifica? Em muitos países de língua hispânica, sobretudo da América Central, ainda se canta, durante a comunhão eucarística, um canto bastante antigo, mas sempre atual pelo seu profundo significado na experiência da nossa própria transfiguração na Eucaristia. Para mim, ele é inesquecível em sua letra e melodia. Tanto que dele fiz uma tradução cantada, aliás, com a mesma melodia, nas missas que celebro às quintas-feiras. Intitula-se o canto: "Uma espiga dourada pelo sol". E, o seu maravilhoso refrão faz-nos repetir: "Deus nos faz eucaristia no amor"! É, portanto, na Eucaristia consumada pela comunhão, que podemos viver - e, de fato, vivemos - uma autêntica transfiguração. Transfigurados em outros Cristos para o serviço do Reino na planície do mundo, entre irmãos e irmãs, mesmo entre aqueles que mais necessitam da iluminação do Espírito de Deus ou que d’Ele estão distantes!

Síntese: Transfigurados pela experiência de JESUS, deixemo-nos "levar por Jesus"! Jesus é a PALAVRA...Jesus é a ORAÇÃO... JESUS é a EUCARISTIA... Seremos nós, os que desejamos ser fiéis seguidores dEle, os novos transfigurados com Ele no século XXI?

2. Agosto - mês das Vocações. Julgo desnecessário reprisar aqui a definição de vocação. Apenas relembrar que vocação quer dizer chamado. E que todo chamado espera uma resposta. Muitas são as opções de resposta ao chamado de Deus dos que desejam seguir a vocação e o caminho de Jesus.

2.1. Vocação para o ministério e para a vida consagrada. O ministério é a resposta ao chamado de Deus para a entrega de toda a vida a serviço do Povo de Deus pelo anúncio da Palavra e pela celebração dos sacramentos, enquanto a vida consagrada, a de religiosos e religiosas e demais participantes de novas comunidades, supõe dedicar a vida a diferentes e múltiplos serviços ao mesmo Povo de Deus.

2.2. Vocação e Missão do leigo e da leiga. Há tantos anos entregue ao ministério entre os leigos e leigas, dou-me conta que tanto a hierarquia, o clero[2], e os próprios leigos estamos ainda distantes não apenas do que significa uma vocação laical como, sobretudo, da prática e compromisso dessa vocação como uma missão evangelizadora em meio às controvertidas realidades do mundo: família, profissão, convivência social, etc.. Existe um documento eclesial precioso e absolutamente oportuno, todo ele inspirado no Concílio Vaticano II, chamado Exortação Apostólica Chistifideles Laici, do Papa São João Paulo II, sobre a vocação e missão dos Leigos na Igreja e no Mundo (30/12/1988). Resumindo: vale a pena sempre voltar ao estudo dessa preciosidade, esforçando-se para pô-la em prática, tanto por parte de Movimentos e Comunidades eclesiais como, também, da hierarquia e do clero. A todos aconselho vivamente a começar ou recomeçar a leitura e estudo da CHL pela Oração a Maria que, de certa forma, condensa todo seu conteúdo e proposta na sua conclusão.

Meu abraço fraterno e a garantia de minha lembrança na oração e no altar da Sagrada Eucaristia,

 

Pe.José Gilberto BERALDO
Equipe Sacerdotal do GEN - MCC Brasil

 



[1] Palavra de Jesus: "Quem é bom tira coisas boas do seu coração, que é bom; mas quem é mau tira coisas más do seu tesouro, que é mau. Porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio" (Lc 6, 45).

[2] "Hierarquia", "Clero" são expressões, resquícios ainda da Idade Média, que, a meu ver, transpiram por parte da Igreja, autoridade de poder e não autoridade de serviço ao Povo de Deus.