Estatuto Social

Carta MCC Brasil – Ago 2016 – 204ª

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“Que o Deus da esperança vos encha de toda alegria e paz, na vossa vida de fé. Assim, vossa esperança transbordará, pelo poder do Espírito Santo”

(Rm 15,13)

Muito amados leitores e leitoras: nesta carta, cujo foco central é a esperança, saúdo-os repetindo as palavras de Paulo na abertura de sua Primeira Carta aos Tessalonicenses: “Continuamente, diante de nosso Deus e Pai, lembramo-nos da ação de vossa fé, do esforço de vosso amor e da constância da vossa esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo” (1Tes 1,3).

Esta é uma época de acelerada transição apresenta para nossa cultura o desafio de um futuro dificilmente previsível. Por isso, nem me atrevo a traçar aqui algumas de suas características completamente distintas das que até agora – ou melhor, até mais ou menos a metade do século passado – temos experimentado.

Entretanto, vivendo e sentindo na própria carne as consequências daquelas características, não podemos deixar de mencionar pelo menos duas, que fazem com que quase percamos a esperança num mundo mais humano e, por isso, mais digno de ser plenamente vivido. Trata-se da “globalização da indiferença” (EG 54)[1] e da violência inimaginável que se faz presente no mundo todo e, até, em muitas geografias, por conta de mal interpretadas convicções religiosas. Delas nascem tanto a desilusão no próprio ser humano, quanto a desesperança num mundo melhor e mais digno de ser vivido.

 

Sugestão para reflexão pessoal e/ou em grupo. Como afirmado acima, um dos grandes desafios dos dias de hoje é a indiferença diante do sofrimento das pessoas, muitas vezes tão perto de nós, ou, então, dos acontecimentos, sobretudo quando distantes de nossa realidade. Pergunta-se: como você e/ou o seu grupo analisa essas situações e que atitudes podem e dever tomadas para que não se crie uma “mentalidade da indiferença ou da violência”?

Apesar de tudo, poderíamos nós, os seguidores de Jesus, vislumbrar no tempo presente e daqui para o futuro, um tempo de extraordinária esperança. Já não desejo avançar o tempo de esperança projetando-o na vida eterna, a nós prometida por Jesus, alargando-nos o horizonte de ternura para o aconchego eterno do Pai misericordioso.

Refiro-me a dois momentos ou a duas celebrações que, neste mês de agosto, poderão alimentar nossa esperança. São Paulo nos mostra Abraão como aquele que “esperando contra toda a esperança, firmou-se na fé e, assim, tornou-se pai de muitos povos, conforme lhe fora dito: ‘Assim será tua posteridade’” (Rm 4,18). Aliás, muito além desta citação de São Paulo, inúmeras outras podemos encontrar tanto no Antigo Testamento – quando a promessa do Todo Poderoso nutria no povo eleito a esperança de uma terra onde “corria leite e mel” (cf. Ex 3,8) – quanto no Novo Testamento que alimenta a nossa firme e fundada esperança num mundo melhor e, finalmente, na acolhida dos braços amorosos do Pai (cf. Mt 25,34).

Por outro lado, tenhamos sempre presente que a Esperança, juntamente com a Fé e a Caridade, são as três virtudes (chamadas teologais porque referem-se diretamente a Deus) que Ele nos infunde no batismo. E d’Ele, através de cada um de nós, seus filhos e filhas, emanam para nossos irmão e irmãs.  Pela fé nós O aceitamos plenamente e a tudo o que por Ele nos foi revelado; pela esperança nossa vida terrena está totalmente voltada para Deus, esperando n’Ele e n’Ele apoiados para chegar a possuí-Lo um dia e vê-Lo face a face; pela caridade “amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos” (cf. Mc 12, 30-33).

1. Transfiguração de Jesus. No centro do episódio da transfiguração de Jesus que a sagrada liturgia celebra no dia 6 de agosto, está a confirmação clara por parte do Pai da identidade de seu filho: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o” (Mc 9, 7; (cf. Mt 17,2; Lc 9,29). Ainda que se trate de uma revelação direta do Pai a respeito de Jesus, não podemos ignorar que o mesmo episódio deve significar para todos os seguidores de Jesus a promessa divina e a esperança da nossa própria transfiguração. Vivenciando conscientemente a afirmação de São Paulo aos Gálatas, alimentando uma “crística” esperança, vamos transfigurando-nos como a pessoa de Jesus: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). E, logo adiante, Paulo alimenta mais uma vez a nossa esperança: “Meus filhos, por vós sinto, de novo, as dores do parto, até Cristo ser formado em vós” (Gl 4,19). E, como aqui, em inúmeros outros parágrafos de suas Cartas, Paulo vai deixando transparecer a firme esperança de nossa identidade com Cristo (cf. Ef 4,15; Fl 1,6, Gl 4,19, etc.). E, consequentemente, a nossa própria “transfiguração” interior!

Sugestão para reflexão pessoal e/ou em grupo. Como você e/ou o seu grupo entende a vivência dessa transfiguração? Como algo que não possa ser visível como foi a de Jesus diante de seus discípulos espantados? Ou como algo cuja visibilidade reflete-se no testemunho de vida do discípulo de Jesus, no crescimento de sua fé em todos os momentos e situações do seu cotidiano; no seu amor a Deus e ao próximo, e na sua esperança de um mundo mais humano e mais feliz para o qual ele vive e trabalha?

2. Assunção de Maria. Na Assunção de Maria aos céus, celebrada no dia 15 de agosto, podemos alimentar aquela esperança “que transbordará pelo poder do Espírito Santo”, como lembra São Paulo aos Romanos. De fato, no prefácio da missa própria da Assunção de Maria, cantamos: “Hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho, pois preservastes da corrupção da morte aquela que gerou, de modo inefável, vosso próprio Filho feito homem, autor de toda a vida”. A razão da nossa esperança aqui acenada está em que uma criatura como cada um e cada uma de nós, senão preservados da morte do corpo, pelo menos gozaremos com ela, a fruição eterna da Trindade Santíssima. Também cantando o Magnificat – o canto de Maria ao visitar sua prima Santa Isabel – podemos nutrir nossa esperança de que Deus cumprirá sua promessa em relação à nossa salvação como a cumpriu para Israel: “Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua descendência para sempre” (Lc1,54-55). Descendência na qual nos encontramos como povo de Deus que somos!

 

Sugestão para reflexão pessoal e/ou em grupo. Como você e/ou seu grupo interpreta e assimila em sua vida a Assunção de Maria? Seria apenas como o reconhecimento da deferência àquela que foi Mãe de Deus? Ou, com genuína emoção, seria a certeza revelada naquele canto tão simples e, até, quem sabe, ingênuo, de nossa piedade popular e que teceu os dias da infância de muitos de nós: “1. Com minha mãe estarei na santa glória um dia, ao lado de Maria no céu triunfarei - No céu, no céu com minha mãe estarei. 2. Com minha mãe estarei aos anjos se ajuntando. Do onipotente ao mando hosanas lhe darei. 3. Com minha mãe estarei e então coroa digna de mão tão benigna feliz receberei. 4. Com minha mãe estarei e sempre neste exílio de seu piedoso auxílio com fé me valerei”.

 

Não poderia encerrar esta Carta, cujo tema é a esperança evangélica, sem citar algumas preciosas palavras do papa Francisco no final do parágrafo 86 da EG, no qual Francisco tratou do vazio de muitas vidas como uma “deserto”: “No deserto, é possível redescobrir o valor daquilo que é essencial para a vida; assim sendo, no mundo de hoje, há inúmeros sinais da sede de Deus, do sentido último da vida, ainda que muitas vezes expressos implícita ou negativamente. E, no deserto, existe sobretudo a necessidade de pessoas de fé que, com suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra Prometida, mantendo assim viva a esperança”. Em todo o caso, lá somos chamados a ser pessoas-cântaro para dar de beber aos outros. Às vezes o cântaro transforma-se numa pesada cruz, mas foi precisamente na Cruz que o Senhor, trespassado, Se nos entregou como fonte de água viva”. E acrescenta o Papa um impressionante apelo final: “Não deixemos que nos roubem a esperança”.

Com meu abraço fraterno, deixo-os na companhia de Pedro, Apóstolo: “O que esperamos, de acordo com sua promessa, são novos céus e uma nova terra, nos quais habitará a justiça. Caríssimos, vivendo nesta esperança, esforçai-vos para que ele vos encontre numa vida pura, sem mancha e em paz”. (2Pd 3, 13-14).

Pe. José Gilberto BERALDO
Equipe sacerdotal do GEN
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