Estatuto Social

CARTA MCC BRASIL – SET 2016 – 205ª.

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“Precisais renovar-vos, pela transformação espiritual de vossa mente, e vestir-vos do homem novo, criado à imagem de Deus na verdadeira justiça e santidade” (Ef 4, 23-24). “... já vos despojastes do homem velho e de sua maneira de agir e vos revestistes do homem novo, o qual vai sendo renovado à imagem do seu Criador, a fim de alcançar um conhecimento cada vez mais perfeito”

(Cl 3, 9b-10)

Muito amados e sempre lembrados irmãos e irmãs, desejando ardentemente que “...cheguemos, todos juntos, à unidade na fé e no conhecimento do Filho de Deus, ao estado de adultos, à estatura do Cristo em sua plenitude” (Ef 4, 13), ofereço-lhes, como todos os meses, algumas poucas reflexões:

1. Alguns sinais característicos da primavera na natureza. No dia 22 de setembro inicia-se a primavera. Alguns sinais anunciam e identificam essa estação: a temperatura sobe a um nível agradável; as árvores se enchem de novas folhas verdes; os jardins ficam repletos de flores; o perfume invade o ar; até as pessoas, vestindo-se com roupas mais leves, parecem mais vivas e alegres... Trata-se de uma estação tão querida, que alguns ‘movimentos’ desenvolvidos ao longo da Historia, por suas promessas de novas flores e folhas, de um tempo de leveza e alegria, acabaram recebendo o nome dessa estação, como a Primavera de Praga, por exemplo...

2. Primavera na Igreja ou da Igreja? Há mais de cinquenta anos, tão logo terminou o Concílio Vaticano II, iniciou-se com surpreendente entusiasmo, um novo tempo com novas perspectivas para a ação evangelizadora da nossa santa Igreja. Parecia, aliás, ter “entrado na moda” – entre teólogos e pastoralistas e no linguajar de muitos da hierarquia e do Povo de Deus, sacerdotes e leigos – referir-se ao pós-Concílio como uma “nova primavera para a Igreja”. Entretanto, a despeito da esperança de que as amáveis características da estação impregnassem a práxis da Igreja, com algumas exceções observadas de modo geral na liturgia e no incentivo à Palavra – estudo, leitura, lectio divina (leitura orante Bíblia) – pouco a pouco, essa “primavera” foi perdendo as cores, as viçosas promessas foram murchando, o perfume das flores foi diminuindo... Mesmo alguns Movimentos eclesiais que se diziam de vanguarda ou que, com seu carisma, haviam “precedido” o Vaticano II, apesar de todas as claras manifestações do Espírito Santo, foram perdendo seu viço, chegando a se preocupar mais com uma espécie de “culto” aos seus iniciadores ou fundadores do que ao aggiornamento do seu carisma... Felizmente, como o Espírito Santo não abandona o seu povo, a presença do papa Francisco parece trazer à Igreja um novo frescor; seu testemunho de vida com seu “cheiro de ovelha”, segundo sua própria e frequente expressão, vêm trazendo de volta para o Povo de Deus aquelas novas cores primaveris, bem como renovadas esperanças de que se torne realidade o sonho do papa João XXI, ao convocar o Vaticano II, de que “se abrissem as janelas da Igreja para que nela pudesse entrar, de novo e com mais força, o sopro de renovação e de revitalização insuflado pelo Espírito de Deus”! Perguntemo-nos, então: que outros sinais de primavera, mirando o horizonte da nossa santa Igreja Católica, de suas comunidades, de seus movimentos ou associações, podemos vislumbrar? Com viva esperança aguardemos, pois, que essa primavera da Igreja-instituição, desponte cheia de novo viço e novo vigor na Igreja-Povo de Deus a caminho!

3. A Carta Encíclica Laudato si’, sobre o Cuidado da Casa Comum. Francisco abre sua carta-encíclica, precisamente repetindo o louvor do santo de quem tomou emprestado o nome, e que é tão querido por todos, precisamente por causa do seu respeito à natureza! São Francisco chamava de irmãos e irmãs todas as demais criaturas de Deus, incluindo as flores que alegravam a natureza, as árvores que produziam sombra, os riachos que mitigavam a sede... E o Papa mostra sem rodeios que, se quiser preservar a vida, todos os homens e mulheres têm que cuidar da casa que o Pai lhes deu. Nela hão de suceder-se as estações para que nada falte à manutenção da vida no presente e no futuro. A atividade descontrolada do homem na produção do progresso não pode, jamais, sobrepor-se à manutenção das condições essenciais para a preservação da vida que, na sua onisciência, Deus planejou e criou. A ‘primavera’ imprescindível à natureza deve ser, também, a primavera que, no coração de cada habitante responsável do planeta, o impulsionará a reconstruir e o impedirá de destruir.

4. A Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, sobre o Anúncio do Evangelho no Mundo Atual. Nesse documento, o Papa aborda, exatamente, a alegria ‘primaveril’ que deve caracterizar o anúncio do Evangelho no mundo em que vivemos – um mundo que perdeu a alegria da ‘primavera’ porque se deixou envolver pelas promessas de felicidade que o progresso material não conseguiu cumprir. Diz Francisco que “o Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente à alegria”. A cruz de cada dia, que devemos carregar ao longo da vida e que pode ser representada por tantas formas de decepções e tragédias, não é em si um símbolo da dor, mas apenas instrumento da redenção que conduz à alegria eterna. A ‘primavera’ da fé de quem encontrou Jesus e decidiu segui-Lo será a chave da alegria do anúncio de que será capaz!

4. Primavera do seguidor do caminho de Jesus. Assim como para a grande comunidade da Igreja pode acontecer uma nova primavera, também para cada um e para cada uma de seus filhos e filhas, é possível vislumbrar novos tempos e novos horizontes. Como cristãos e cristãs, devemos estar aptos a “correr com perseverança na competição que nos é proposta, com os olhos fixos em Jesus, que vai à frente da nossa fé e a leva à perfeição” (Hb 12,1b-2a). Portanto, ao iniciar-se uma nova primavera na natureza, devemos almejar um novo tempo, uma vida com novas cores, um novo reflorescer da natureza, a revitalização da nossa fé – revitalização que está ao nosso alcance desde que nos proponhamos a não “olhar para trás”, pois “Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62). E “olhar para trás” pode ser, por exemplo: apegar-se à saudade da liturgia do passado que escapava ao entendimento; alimentar devoções particulares, esquecendo-se de alimentar a vida com a Palavra de Deus e com a Eucaristia; saber de cor orações compostas por outros sempre tendo em mãos livrinhos de novenas e trezenas, ao invés de rezar a Bíblia e dialogar com Deus Pai; “cumprir as obrigações religiosas” como se fossem um fardo pesado do dever e não como atos de amor, de gratidão, de louvor; inventar e, quase que fanaticamente, propagar certas “aparições” em detrimento da contemplação do rosto de Jesus, “o rosto da misericórdia”; apegar-se e praticar o supérfluo ou o acidental, esquecendo-se do essencial que se chama amor ao próximo, solidariedade, fraternidade, perdão, ou seja, rezar o Pai nosso, como Jesus nos ensinou!

Aproveitemos, pois, essa primavera da natureza que nos cerca, para olhar para dentro de nós mesmos e nos perguntar se temos cultivado a responsabilidade de conhecer a Palavra e a pôr em prática, de rezar não apenas com palavras, mas com ações, num diálogo ininterrupto com Deus Pai e Criador, de nos devotar ao cuidado da casa comum como seus fiéis administradores, de assimilar e espalhar a alegria do Evangelho a todos aqueles e aquelas que, muitas vezes apenas através de nós, poderão vir a conhecer Jesus.

Com o desejo de que uma eterna primavera de fé floresça no coração de cada um, recomendo a reflexão atenta a uma frase da oração que encerra a Laudato Si’: “Iluminai os donos do poder e do dinheiro, para que não caiam no pecado da indiferença, amem o bem comum, promovam os fracos, e cuidem deste mundo que habitamos”.

Pe. José Gilberto BERALDO

Equipe sacerdotal do GEN

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