Estatuto Social

Carta MCC Brasil – Julho 2017 – 215ª.

Avaliação do Usuário

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

“Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos”

(Mt 28, 19-20).

Irmãos e irmãs, leitores e leitoras muito queridos: desejo-lhes saúde, paz e alegria na peregrinação do seguimento de Jesus!

Introdução. Ao lançar os olhos sobre as celebrações da liturgia no mês de julho, deparamo-nos com uma síntese inestimável de testemunhos e estímulos de tantos santos e santas que podem nos auxiliar, e de fato o fazem, em nossa peregrinação diária pelo caminho de Jesus. O segredo ou, se assim o preferirem, o caminho do seguimento de Jesus, hoje, está em nos darmos conta de como atualizar aqueles testemunhos e estímulos ao invés de considerá-los somente como algo pertencente ao passado, sem muito a ver com o presente de nossa caminhada cristã. Aliás, é o que pode acontecer quando, ao lermos o início das narrativas evangélicas, ouvimos um “naquele tempo”. Se não conseguirmos trazer “aquele tempo” para a nossa atual história, a narrativa pouco ou nada poderá significar para a vida de cada um de nós que queremos ser discípulos-missionários e autênticos seguidores de Jesus. Proponho, pois, que juntos revitalizemos aquelas celebrações dos nossos irmãos e irmãs – testemunhos e testemunhas do passado – sintetizando-as em dois abrangentes temas e aplicando-as concretamente ao presente da Igreja, portanto, de cada um e de cada uma de nós. Tudo como se, agora, aos nossos ouvidos, soasse insistente o envio missionário de Jesus: “Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! No vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo.’ Curai doentes, ressuscitai mortos, purificai leprosos, expulsai demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!” (Mt 10, 6-8).

Primeiro tema: A Fé e a Missão – São Pedro e São Paulo (02/07)[1], São Tomé (03/07) e São Tiago Maior (25/07), Apóstolos. O fundamento da vida desses apóstolos e do seu seguimento de Jesus reside na fé de todos eles no Senhor Jesus. Quantas e quantas vezes já ouvimos: “Tu és o Cristo” (Mc 8, 29), ou “Aumenta a nossa fé” (Lc 17, 5), ou “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20, 28). E São Paulo reafirma a sua fé quando exclama: “É por isso que estou suportando também estes sofrimentos, mas não me envergonho. Pois sei em quem acreditei, e estou certo de que ele é poderoso para guardar até aquele dia o bem a mim confiado” (2Tm 1, 12). É nestas e em outras manifestações de fé dos apóstolos que nasce a sua missão de anunciar o Reino.

Atualizando... Também é a nossa missão de discípulos-missionários hoje. Para nos ajudar a aprofundar essa breve reflexão sobre fé e missão em nossos dias, ninguém melhor que D. Paulo Mendes Peixoto, arcebispo de Uberaba (MG), a quem agradeço, que a expressa num artigo muito oportuno – como, aliás, são todos os seus artigos – que acabo de receber, intitulado “Convicção de fé”, e do qual transcrevo alguns parágrafos, cujas palavras tomo a liberdade de fazer minhas: “A fé, no Reino divino, é um dom de Deus. É recebida pelo batismo, como uma semente. Mas tem que ser regada, assumida com maturidade e equilíbrio. Muitas de suas manifestações revelam desequilíbrios. Até o fato de a pessoa querer ser diferente das outras, na comunidade cristã, onde ela (a fé) deve ser colocada em prática, “cheira” a atitude estranha, que não passa de falta de equilíbrio.

Identifica-se claramente, nos últimos tempos, uma forte contradição relacionada com a fé: de um lado, o indiferentismo em relação à vida cristã; de outro, as manifestações de religiosidade sensacionalista, com pouco ou nada de comprometimento com as realidades concretas da vida da sociedade. Não adianta dizer ter fé se não tem obras, se não há esforço para construir uma vida de liberdade.

Quem teve oportunidade de uma boa formação sobre a fé, tem mais facilidade para enfrentar os caminhos difíceis na vida. Seus atos devem ser autênticos, justos e honestos. Sua base de ação está mais fundamentada na Palavra de Deus. Fica indignado diante da corrupção, da violência e da falta de paz. Mas também acredita no caminho do diálogo, do respeito e da misericórdia”.

E conclui D. Paulo: “Nos momentos de provação, por causa da missão profética, Deus está com as pessoas que professam a fé n’Ele. O medo não pode roubar da pessoa de fé sua motivação profética, e ela não deve ter medo de quem mata o corpo, pois Deus cuida até dos pássaros do campo, quanto mais da vida de seus filhos na fé (cf. Mt 10,28-29). Jesus disse estar com seu povo até o fim dos tempos (cf. Mt 28,20). Quem luta por Deus, fazendo o bem pelas pessoas e pela natureza, pode contar com Ele em todos os momentos. Ele não está presente em quem “trambica”, usa de esperteza no exercício do poder e do ter, porque essa não é uma atitude de quem vivencia a fé. A vida será julgada pelo que a pessoa fez ou deixou de fazer. Ela terá que arcar com as consequências de seus maus atos”.

Segundo tema: A oração e o trabalho missionário – São Bento (11/07), São Camilo de Lélis (14/07), São Boaventura (15/07), Bem-aventurado Inácio de Azevedo (17/07), São Joaquim (26/07) e Santo Inácio de Loyola (31/07). Todos esses santos, irmãos que nos precederam heroicamente no caminho de Jesus, deixaram-nos testemunhos de vida e estímulos suficientes para a prática desse binômio fundamental para o exercício de uma autêntica espiritualidade evangélica em busca da santidade. E o fizeram, cada um, fiéis a seu carisma e no contexto do seu tempo. São Bento, por exemplo, o patriarca dos monges do ocidente, entre outras prescrições de sua Santa Regra, deixou aquela norma de ouro: “reza e trabalha”. Lembramos, até, São Joaquim que, com sua esposa Ana, trouxe ao mundo Maria, a mãe de Jesus: trabalhava para sustentar sua família e, como todo bom israelita, frequentava o Templo, lugar de oração.

Atualizando... “contemplação na ação”. Não seria bem uma “atualização”, pois já um dos mais importantes teólogos da Igreja, São Tomás de Aquino (1225-1274) utilizava a expressão como para traduzir o “reza e trabalha”. Entretanto, a “contemplação na ação” é usada hoje com maior frequência e, talvez, mais bem entendida. E, para melhor aprofundarmos na reflexão o significado atual de tão antiga afirmação vem em nosso socorro o Papa Francisco. Assim lemos na EG n.262 sob o título “Motivações para um renovado impulso missionário”: “Evangelizadores com espírito quer dizer evangelizadores que rezam e trabalham. Do ponto de vista da evangelização, não servem as propostas místicas desprovidas de um vigoroso compromisso social e missionário, nem os discursos e ações sociais e pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração. Essas propostas parciais e desagregadoras alcançam só pequenos grupos e não têm força para uma ampla penetração, porque mutilam o Evangelho. É preciso cultivar sempre um espaço interior que dê sentido cristão ao compromisso e à atividade. Sem momentos prolongados de adoração, de encontro orante com a Palavra, de diálogo sincero com o Senhor, as tarefas facilmente se esvaziam de significado, quebrantamo-nos com o cansaço e as dificuldades, e o ardor apaga-se. A Igreja não pode dispensar o pulmão da oração, e alegra-me imensamente que se multipliquem, em todas as instituições eclesiais, os grupos de oração, de intercessão, de leitura orante da Palavra, as adorações perpétuas da Eucaristia. Ao mesmo tempo, “é preciso rejeitar a tentação de uma espiritualidade intimista e individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da encarnação”. Há o risco de que alguns momentos de oração se tornem uma desculpa para evitar que se dedique a vida à missão, porque a privatização do estilo de vida pode levar os cristãos a refugiarem-se em alguma falsa espiritualidade”.

Conclusão. Não poderei concluir esta carta sem citar Maria, a Mãe da Evangelização, como modelo de “contemplação na ação” lembrada na EG (287): “À Mãe do Evangelho vivente, pedimos a sua intercessão a fim de que este convite para uma nova etapa da evangelização seja acolhido por toda a comunidade eclesial. Ela é a mulher de fé, que vive e caminha na fé, e “a sua excepcional peregrinação da fé representa um ponto de referência constante para a Igreja”. Ela deixou-se conduzir pelo Espírito, por um itinerário de fé, rumo a uma destinação feita de serviço e fecundidade. Hoje fixamos nela o olhar, para que nos ajude a anunciar a todos a mensagem de salvação e para que os novos discípulos se tornem operosos evangelizadores”.

A todos, meu abraço fraterno, minha amizade e meu carinho no Senhor Jesus,

Pe. José Gilberto BERALDO
Equipe sacerdotal do GEN

 


[1]     Visando a uma maior participação dos fieis a festa dos Apóstolos foi transferida aqui no Brasil, do dia 29/06 para o domingo seguinte.