Estatuto Social

Carta MCC Brasil – Setembro 2017 - 217ª.

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“Tua Palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho!” (Salmo 119, 105). “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto de Deus, e a Palavra era Deus. Ela existia, no princípio, junto de Deus. Tudo foi feito por meio dela, e sem ela nada foi feito de tudo o que existe. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens... E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós. Nós vimos a sua glória, glória que recebe do seu Pai como filho único, cheio de graça e de verdade”

(Jo 1, 1-5;14).

Caríssimos irmãos e irmãs:

Pela Igreja no Brasil e, parece, também em alguns outros países, nós, católicos, somos convidados a celebrar em setembro o MÊS DA BÍBLIA.

A origem desse salutar e edificante costume estaria na coincidência da celebração da festa de São Jerônimo – 30/9 – um dos maiores biblistas da Igreja. Seu nome e seu ministério estão visceralmente ligados à tradução da Bíblia do hebraico e grego para o latim, idioma universal do seu tempo.

Dedicar um mês à leitura, reflexão, aprofundamento e oração à Palavra de Deus, não significa, evidentemente, que só durante este mês devamos fazê-lo... Trata-se de um estímulo-lembrança para todos os outros dias do ano, pois da Palavra um seguidor de Jesus deve alimentar-se como se nutre do alimento corporal. Por isso, ainda que meus amáveis leitores (as) possam dispor de inúmeras outras considerações bíblicas, até mais enriquecedoras do que estas, permito-me oferecer-lhes algumas limitadas reflexões sobre a Palavra. Nosso foco será a Palavra-Luz-Jesus.

 

1. “Tua Palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho”. Essa expressão buscada no Salmo mais longo da Bíblia, no Antigo Testamento, será relembrada ou proclamada no prólogo do evangelho de São João, como veremos em outro ponto. Nossas humanas limitações, nossas naturais carências, nossas quase que habituais desatenções podem provocar e, de fato, provocam, tropeços e quedas no chão da vida. E isso ocorre quando as trevas do distanciamento da Palavra se adensam pelas nossas infidelidades e omissões. Sentimos, então, a urgente necessidade de iluminar o nosso caminho com a luz da Palavra contida nas Escrituras. Nossos pés, então feridos e, até muitas vezes, sangrando, encontrarão apoio e segurança para prosseguirmos a caminhada rumo à mais brilhante Luz, rumo ao encontro com Jesus-Palavra-Vida.

2. “No princípio era a Palavra e a Palavra estava junto de Deus e a Palavra era Deus”. Trevas não são somente sinais de morte, mas hospedam em suas profundezas a própria morte. Trevas são os suicídios cada vez mais frequentes, os homicídios, o desrespeito à dignidade da pessoa, a violência sempre mais generalizada e ainda, como costuma dizer o papa Francisco, a indiferença globalizada. Para além dessas mortes físicas ou da deterioração corporal as trevas são ainda, e sobretudo, a morte do espírito; a morte das energias espirituais nascidas pela graça divina. Onde encontrar a luz em meio às trevas? Em quais circunstâncias estarão os nossos passos iluminados? Onde encontraremos a vida? À luz da fé, é na Palavra que encontramos a vida e a luz. Em cada versículo, em cada perícope da Bíblia haveremos de ser ressuscitados e iluminados para seguirmos o caminho de Jesus-Palavra no qual encontramos a Vida e a Luz: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”! (Jo 14,6). E mais: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não caminhará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8, 12)!

3. Nela estava a vida, e a vida era a luz dos homens. A Palavra se fez carne e veio morar entre nós”. O amor é a mais bela expressão da vida e por isso comunica espontaneamente a vida. São Tomás de Aquino afirmou isso através de uma fórmula hoje consagrada: “amor est difusivum sui”, isto é, “o amor expande-se a si mesmo, difunde-se à sua volta”. Se essa expansão e difusão se realizam nos limites do humano, quão grande serão, então, essa expansão e essa difusão nos limites do Amor eterno, da Misericórdia infinita do Pai Celeste? Pois é a sua Palavra, isto é, o mais profundo e misterioso de Si mesmo que Ele nos envia, enviando-nos o seu próprio Filho, Jesus Cristo. Jesus que não só é semelhante a nós, mas que, “morando entre nós”, partilha conosco a sua própria natureza divina. Aliás, perguntemo-nos: o que há de mais autêntico, de mais íntimo, de mais expressivo ao ser humano do que fazer nascer lá nas profundezas do coração, uma palavra? Seja ela qual for – pode ser a expressão do amor ou do ódio, da verdade ou da mentira, do carinho ou da rejeição, do convite caloroso ou da fria indiferença, da luz irradiante ou da obscuridade das trevas. Pois – repito – sendo Deus amor (cf. Jo 4,16), Ele “se expande” entre nós. E porque “nele estava a vida”, fez de sua vida a “luz dos homens”!

 

4. A experiência da Palavra. Comentando alguns versículos do Evangelho de João, assim se expressa o Pe. Antonio José de Almeida[1] ao referir-se ao encontro da pessoa com a Palavra: O Evangelho de João se apresenta como o drama – mais propriamente, o processo – do encontro (e desencontro) entre o ser humano e a Palavra. A comunicação, aqui – como, aliás, na vida, quando vivida em profundidade – entremeia dito e não-dito, mal-entendidos e cumplicidades, equívocos grosseiros e finas ironias, resistências e rendições. O leitor não pode não se ver envolvido nesse drama, para fazer – em primeira pessoa – a experiência da Palavra que o chama e conduz, passo a passo, a entrar na 'casa' de Jesus-Palavra, a ver a 'casa' de Jesus-Palavra e a tornar-se 'de casa' com Jesus-Palavra”.

A palavra chave aqui é “experiência”. Pode-se tecer inúmeras considerações sobre a Palavra. Todas elas de profunda riqueza. Entretanto, nenhuma será tão completa, tão oportuna, tão fascinante quanto experimentar a Palavra - Jesus. Mergulhar no mistério da Palavra. Nos áridos momentos da insipidez do dia a dia, sentir o seu sabor. Nas horas do amargor das provações, vibrar com a sua doçura. Nos momentos de exaustão pelo cansaço, descansar no seu Coração. Nas horas da rotina que estressa e escraviza, repousar no seus braços misericordiosos. Quem sabe, com os olhos marejados pelo sofrimento causado pelas ausências, deixar-se umedecer pelas lágrimas d’Ele. Ou na intensidade das raivas acumuladas que endurecem o coração, mergulhar no seu perdão. Ou na dor gerada pelas imerecidas ingratidões ou traições, sentir o que Ele sentia...

 

Sintetizando: "A manifestação de Deus é destinada à nossa participação na vida divina, à realização em nós do mistério da sua encarnação. Tal mistério é o cumprimento da vocação do homem." Essas sábias palavras, pronunciadas por Bento XVI, em sua primeira catequese de 2011, resumem o que deve ser a Bíblia, as Escrituras, a Palavra de Deus em nossa vida. É porque a palavra é ‘lâmpada’; é porque ‘no princípio era a palavra’; é porque ‘a palavra se fez carne e veio morar entre nós’; é porque a experiência da palavra nos permite mergulhar em seu mistério – é por causa de tudo isso que podemos conhecer o Mestre e tornar-nos seus discípulos. Seria demais afirmar que, principalmente nos tempos em que vivemos, dificilmente a nossa vida teria algum sentido se ao menos não nos esforçássemos para buscar cumprir essa vocação?

Sugestão para reflexão pessoal e/ou em grupo. Ao ver-se em cada uma das situações acima, ou em outras recorrentes no sua dia a dia, busque nos Evangelhos a passagem correspondente com os olhos fixos naquele que iniciou e realizou a fé, em Jesus. E, mais uma vez, recordando este Mês da Bíblia, aprendamos a praticar a “lectio divina”, isto é, a leitura orante da Palavra de Deus. Melhor, aprendamos a fazer a experiência da Palavra, a experiência de Jesus!

Conclusão. É precisamente a ‘leitura orante da Palavra’ e a ‘experiência da Palavra, que é a experiência de Jesus’ que nos levam a viver os ensinamentos contidos na Bíblia. Com seu estilo inconfundível, o papa Francisco (na audiência geral de 23/08), nos anima a superar nossas dificuldades em viver esses ensinamentos. Ele nos diz: “Mas nós, cristãos, acreditamos que no horizonte do homem há um sol que ilumina eternamente. [...] Somos mais pessoas de primavera do que de outono”. E nos sugere perguntar-nos a nós mesmos: “A minha alma está na primavera ou no outono? Sou uma pessoa de primavera, que espera o fruto, a flor, o sol, ou uma pessoa de outono, que está sempre cabisbaixa, amargurada?” E conclui: “Não nos meçamos em nostalgias, arrependimentos e queixas: sabemos que Deus nos quer herdeiros de uma promessa e incansáveis cultivadores de sonhos.”

Com amizade e carinho, meu abraço fraterno,

Pe.José Gilberto BERALDO
Equipe Sacerdotal GEN
MCC Brasil

 


[1] “Subsidio litúrgico-catequético mensal”, na festa de São Bartolomeu 2017